O meu rosto

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O texto abaixo é uma carta aos leitores e amigos.

Prezados amigos,

Sei que nesse momento pode causar alguma confusão eu não mostrar o rosto. Afinal um autor mostra o seu rosto, e por vezes o seu rosto está intimamente ligado à divulgação do seu livro.

Sei também da importância que teria eu mostrar o meu rosto nesse momento, afinal eu me assumo como acompanhante e não tenho qualquer problema em relação a isto, visto que a prostituição (uso essa palavra apenas para ser entendida), apesar de estar constantemente estigmatizada, não é algo que hoje me cause vergonha.

Teria muita vergonha de mostrar o meu rosto se me casasse com alguém por interesse e viesse com aquela história estapafúrdica de que estava apaixonada, morreria de vergonha se tivesse vários amantes e que nenhum soubesse do outro, morreria de vergonha se tivesse que enganar e ludibriar as pessoas com quem divido a minha intimidade.

Mas essa não é a minha história. Na minha actividade, os homens que estão comigo sabem de tudo, não preciso usar de meias verdades ou segundas intenções. É tudo muito directo, muito frontal, e talvez por isso a prostituição tem esse estigma de ser uma profissão desonesta, por isso causa tanto choque nas pessoas: porque ela não tem máscaras ou não precisa de máscaras, quando vivemos numa sociedade que muitas vezes impõe que temos que usar máscaras – inclusive para nos aceitarem dentro de todas as regras de conduta e bom comportamento.

Até teria vergonha, confesso, caso eu vivesse hoje a prostituição da mesma forma que vivi algum tempo atrás, quando, justamente por ainda ser uma aprendiz, entrava constantemente em conflito com aquilo que sabia da prostituição antes de ser prostituta, aquilo que aprendia na prática e aquilo que ainda não tinha aprendido por mim mesma, uma época em que questionava qual era o meu papel nessa actividade.

Também teria vergonha se fizesse dessa actividade um acto vulgar (como é habitualmente conhecido), se seguisse todas as (más) regras e fosse uma cópia dos estereótipos, se agisse de má índole e justificasse essa má índole própria através da prostituição. Não sou uma santa nem pretendo ser, mas sei que todos os erros que cometi ou que talvez virei a cometer (ninguém está livre disso) não são condicionados pela prostituta, mas pela pessoa que sou. Uma pessoa como qualquer uma, humana, com erros e acertos, qualidades e defeitos. Não uso a prostituição para justificar os meus defeitos, nem encaro como uma consequência normal do meu histórico de vida.

Teria vergonha se não tivesse tido a coragem de modificar os conceitos, se não tivesse tomado a iniciativa de fazer do limão uma limonada.

Se hoje não mostro o meu rosto publicamente, as minhas razões são outras.

Sempre soube que o meu espaço acaba quando começa o do outro. Se hoje não mostro o rosto publicamente, não é para me proteger, mas para proteger às pessoas e o espaço delas.

Eu sei o que isso implicaria para mim se mostrasse o meu rosto: talvez um dia, se procurasse um emprego, estaria sempre marcada pelo facto de ter sido prostituta, não seria respeitada, etc. Mas se quer saber, isso é o que para mim menos importa. Já comecei do zero várias vezes, essa não seria a primeira nem a última, e no fim eu sempre conseguiria resgatar alguma coragem, ou ouvir aquela voz que ordena “Persiste!” (página 289 do livro) porque já percebi que cada vez que me senti mais fraca, mais forte me tornei.

Se hoje não mostro o rosto, a minha razão está ligada às pessoas que amo ou com quem convivo. Como eu não nasci de chocadeira, risos, comecemos pela minha família. A minha família não sabe da minha actividade. Quando decidi aceitar a proposta de vir para Portugal, onde seria prostituta pela primeira vez, eu não perguntei à minha mãe o que ela achava da ideia. Ou seja, a responsabilidade dessa decisão é toda minha. Por que não conto aos meus pais? Porque tal notícia não iria fazer com que eles se sintam bem. Se você é pai ou mãe, talvez possa perceber que, por melhor educação, por melhor formação moral que você possa dar para um filho, ele em dada altura andará com as próprias pernas, seguirá o seu próprio caminho, afinal os filhos não são criados para os pais, mas para o mundo. É verdade que às vezes, principalmente para proteger seus filhos, várias mães gostariam de tê-los para sempre no ventre, para que o mundo não possa magoá-los, feri-los ou destrui-los, mas temos consciência que tal não é humanamente possível.  

Assim como aconteceria com os meus pais, se a vossa filha hoje lhes dissesse que estava a se prostituir, possivelmente se sentiriam culpados, ficariam a se perguntar em que altura falharam na educação dela. A responsabilidade, obviamente, não é vossa como não é dos meus pais, mas entretanto essa informação só trará a dúvida, a mágoa, o ressentimento, a culpa.

Um dia uma pessoa me disse que discordava da minha postura, que eu devia mostrar o rosto sim. Não podia discutir porque essa pessoa não conhece a minha família nem o meu meio. Entretanto, fiquei a pensar: «Ok, mas não tome a sua posição como conclusiva. Espere a sua filha crescer, e se ela vier a se prostituir depois me diga o que pensa do assunto, se vai achar normal, se vai morrer de orgulho dela por isso.»

Sei que nem adiantava justificar «Mas mãe, eu sou uma prostituta boazinha, conheço pessoas excelentes, tenho feito da minha actividade algo humano», porque nesse caso o adjectivo nada suaviza o substantivo que já é tão forte, que simboliza conceitos tão enraizados na cabeça das pessoas.

Não tenho uma família moderninha e nem sei se gostaria de ter tido uma família diferente da minha. Foi ela que me deu todas as bases, e, mesmo eu não tendo seguido a mesma trilha, tenho orgulho dessas bases.

Por isso eu sei que, se eu mostrasse o meu rosto hoje, a minha família seria directamente prejudicada. Sim, eu sairia ferida, não seria perdoada, mas teria que aguentar, afinal foi uma decisão minha ter vindo me prostituir e teria que arcar com as consequências. Mas por mais que eu sofra com isso, meus caros, ninguém sofrerá mais do que os meus familiares e amigos, porque sentirão uma culpa longa, de vários anos, desde o momento do meu nascimento. Além disso, se eu mostrar o rosto, além dessa culpa tão íntima, ainda seriam penalizados, sentiriam os dedos apontados para eles, as pessoas ficariam a procurar alguma falha neles, mesmo quando a responsabilidade é minha.

Um pai e uma mãe criam um filho para a felicidade. Se um filho é preso, esse pai e essa mãe sofrem. Se um filho entra nas drogas, esse pai e essa mãe sofrem. Porque eles não deram amor e carinho para esse filho para que ele sofresse um dia no futuro. Também sofreriam se soubessem de tudo o que passei, e, por mais que muitas coisas boas também me tivessem acontecido na prostituição, sempre temeriam pelo pior, sempre se lastimariam pela vida marginalizada que tenho.

Aprendi muito na prostituição, aprendi inclusive a ver a prostituição de uma outra forma. Entretanto, isso foi algo que EU tive que aprender, não quer dizer que eles também tenham que passar pelo mesmo ou aprender o mesmo. Ainda mais porque há certas coisas que a gente só compreende quando vive na própria pele.

Sei que muita gente vai apoiar a minha decisão, como sei também que alguns irão torcer o nariz para isso, não só por implicância, como também porque não são capazes de se colocar no lugar do outro,  porque não são capazes de perceber que o outro pode - e tem esse direito - pensar diferente, sentir coisas diferentes, ser diferente. Apesar da maior abertura hoje em relação à prostituição, não creio que o meu papel seja o de convencer às pessoas, não tenho que influenciá-las, abrir a cabeça delas e colocar lá as minhas ideias. Cada um pensa como quer, e quando tiver que mudar de ideia, será também por livre vontade, e não por pressão. Não temos que obrigar ninguém a pensar como nós.

Em segundo lugar, não mostro o meu rosto em função da vida que tenho hoje. Conforme poderão observar no meu livro «ALUGO O MEU CORPO» há uma grande diferença entre os homens que frequentam bordéis e aqueles que frequentam apartamentos. Os homens que frequentam bordéis, independente de serem casados ou solteiros, possuem uma vida mais exposta, afinal eles chegam num local onde vêem e são vistos por muitas outras pessoas. Hoje trabalhando como garota de programa independente, nenhum dos meus clientes vêem o outro, porque o cliente de apartamento é mais discreto, zela por essa discrição, não quer que a sua vida privada seja prejudicada. Por serem mais liberais ou por estarem mais expostos, era muito mais comum ser convidada para sair com os homens de bordel do que com os homens que hoje atendo no meu apartamento. Entretanto já saí com alguns – maior parte descomprometidos – para jantares, passeios, discotecas. Se hoje mostro o meu rosto publicamente, essas pessoas serão atingidas pelo estigma, por já terem estado comigo. Se exponho o meu rosto, qualquer pessoa que tenha sido vista comigo terá a sua vida especulada. «Ah, a mulher dele não faz sexo em casa e por isso ele anda com prostitutas!», «Coitado, não consegue arranjar mulher de graça e por isso tem que pagar»… vocês sabem, as pessoas podem ser muito cruéis quando querem ser, quando querem reduzir o outro, quando precisam disso para atenuar a falha que têm no ego. E tal comportamento nem me causaria espanto. A maldade, assim como a bondade, é natural no ser humano. Há muita gente que apenas quer ver o lado negativo das coisas e das pessoas, porque se sentem falhadas e infelizes com suas próprias vidas, e por isso precisam fazer com que as outras sejam tão infelizes quanto elas.

Não saio apenas com clientes. Conforme já contei no meu blog, já me encontrei com várias pessoas que não tinham o intuito de fazer um programa comigo. Por exemplo, algumas leitoras do meu blog me escreveram, mostraram admiração pela minha postura, nos encontramos pessoalmente para conversar. Na maioria dos casos, sabe o que aconteceu quando elas contaram para os seus parceiros que iriam ou tinham se encontrado comigo? Eles disseram que elas estariam interessadas em ser prostitutas, e que por isso me admiravam. Ou seja, se mostrasse o meu rosto, toda mulher que tivesse sido vista comigo seria considerada “colega de profissão”, levaria fama sem deitar na cama.

Ou seja, boa parte da sociedade não está preparada para lidar com isso, e eu não posso, por uma questão de pura vaidade, mostrar o meu rosto e prejudicar essas pessoas.

Você acha que eu não gostaria de estar sentada numa cadeira, numa mesa cheia de livros, dando autógrafos, olhando nos olhos das pessoas, abraçando e agradecendo? Acha que eu não queria me expor de cara limpa, poder fazer palestras, falar do assunto abertamente? Gostaria, se fosse apenas por mim, se o mundo fosse apenas meu. «Ah, mas hoje isso já não acontece tanto, nem tanta gente será prejudicada», você me diz. Mas isso é como o sexo sem preservativo: você não precisa de fazer sexo sem preservativo com milhares de pessoas para pegar SIDA, basta fazer uma vez sem preservativo para já correr o risco. Não preciso de me preocupar com as dezenas ou centenas de pessoas que posso prejudicar com a minha exposição; basta que apenas uma seja prejudicada para eu ver que afinal não vale a pena, e que estou a invadir o espaço do outro.

Não me recuso, sempre que tenho algum espaço na minha agenda, a me encontrar com cada pessoa, tomar um copo, conversar… Claro que, obviamente, nesse aspecto tenho que ser muito selectiva. É habitual, por exemplo, que muitos homens se sintam curiosos em me conhecer, mais com o intuito de saber se agrado fisicamente para um programa, e não necessariamente porque querem uma conversa amigável sem segundas intenções. É preciso, nesse aspecto, saber separar as águas. Se o objectivo dele é estar comigo para um contacto íntimo, deve marcar um programa, como as outras pessoas fazem. Na minha actividade também não mostro o rosto, caso contrário continuaria a trabalhar em boîtes, onde fico mais exposta, e não zelaria pela discrição que tenho agora.

O que me recuso é à uma exposição pública, que possa ferir directamente essas pessoas que estão ao meu redor. Não tenho um mundo só meu, por isso não posso me dar ao luxo de ser egoísta ou egocêntrica.

O meu espaço acaba quando começa o do outro. No apartamento onde atendo clientes, nunca fui desrespeitada por qualquer vizinho, sempre fui tratada com educação e respeito. Eu marco hora com os clientes, não aceito que toquem na minha campainha, ninguém vê sobe e desce nas escadas, tenho um limite máximo de clientes diários, não atendo nenhum desconhecido em hora tardia, etc. Ou seja, a minha actividade não prejudica aqueles que me rodeiam.

Em alguns casos, ao abrir a porta do meu apartamento, constatei que tal homem era alguém com quem eu convivia “socialmente”. Por exemplo, uma vez era um senhor que eu sabia ser marido de uma senhora que trabalha numa loja onde muito habitualmente fazia compras. Me recusei a atender tal senhor, porque tenho a minha ética profissional e pessoal, não creio que tenho que fazer essa actividade sem qualquer ligação aos meus conceitos morais, ou que estes não devem existir.

Não mostrar o meu rosto também me permite poder falar abertamente sobre todos os assuntos no meu blog. Caso contrário, tudo o que eu dissesse levantaria suspeita quanto às pessoas que aparecem comigo. Por exemplo, um dia contei no meu blog sobre um cliente meu que é gay, que me contrata para ser sua namorada de aluguel. Se conhecem o meu rosto, logo podem suspeitar de qualquer encontro que eu tenha com qualquer pessoa, ligando aquilo que contei no meu blog. Ou seja, ao invés de apenas me expor, estaria também a expor a privacidade,  a liberdade e os segredos daqueles que conheço.

Eu trabalho com a intimidade alheia, inclusive com os segredos que devem ser guardados.

Sei que, antes que possam surgir perguntas ou insinuações nesse sentido, tenho que esclarecer que a minha posição em não mostrar o rosto não é uma crítica àquelas que já o fizeram, muito pelo contrário, admiro a postura e a coragem delas. Não mostro o meu rosto por falta de coragem, mas porque há muita coisa em volta. Não posso falar do meio delas, nem questionar a decisão delas, cada um conhece o seu meio, e eu conheço o meu, e por isso mesmo que sei que a minha exposição seria prejudicial àqueles que me rodeiam.

A minha posição de não mostrar o rosto foi muito discutida neste último ano, quando estive em negociações com as Editoras. Teve uma que não levantou qualquer objecção, disse que se eu não queria mostrar o rosto tudo bem, assunto encerrado, tinha que ser como o autor queria, aliás, essa Editora tinha acabado de lançar um livro naquela época de uma autora que também tinha decidido não mostrar o rosto. Nunca ninguém me disse que era obrigada a mostrar o rosto, ou que recusariam publicar o meu livro porque eu não ia mostrar o rosto, mas me deixaram à par da realidade no que diz respeito ao mercado editorial: se eu mostrasse as vendas seriam maiores, porque o leitor precisa de uma imagem do autor, saber que ele realmente existe, porque o impacto seria maior, porque a divulgação na imprensa seria maior, etc. Então toda vez que vinha para casa depois de uma reunião eu ficava a pensar no assunto, enquanto a imagem de várias pessoas importantes na minha vida vinham à minha cabeça: será que vale a pena? Será que, por causa de mais dez, cem, mil ou um milhão de exemplares vendidos, vale a pena prejudicar ou ferir aquelas pessoas que amo? Será que as pessoas têm mesmo um preço? Não, nenhum dinheiro do mundo paga nada disso. Claro que eu quero que o meu livro seja lido, e que para isso ele precisa ser vendido. Entretanto, para tal eu não quero precisar me vender ou vender aqueles que para mim têm importância.

Sei que parte da minha análise pode ter algum exagero, afinal há pessoas boas e compreensivas no mundo. Entretanto, mesmo tendo uma pequena margem para o risco, por mais insignificante que pareça, eu não vou desvalorizá-la, porque a margem de risco pode ser insignificante, mas as pessoas que amo, respeito e admiro não são.

Além disso, meus caros, o que estou lançando agora é um livro, um livro com textos, e eu quero que as pessoas se lembrem dos meus textos, da minha história, e não do meu corpo ou do meu rosto. Se eu achasse que o meu rosto e o meu corpo seriam o mais importante, talvez o mais sensato seria eu lançar um livro de fotografias, ou aceitar as propostas que recebi, desde o lançamento do meu site, para fazer filmes pornográficos. Nada contra, apenas não é “a minha arte”. Se hoje lanço um livro é porque gosto da escrita, e é a escrita que eu quero que seja lembrada. É natural que agora, quando trabalho na divulgação do meu livro, neste site possam aparecer algumas imagens com algum - pequeno - teor erótico, mas são apenas a título de ilustração da história, porque o mais importante é a mensagem, e não a imagem em si.  

Ao invés do «ALUGO O MEU CORPO» eu poderia ter começado por outros materiais, mais leves, mais suaves, mais apelativos… mas escolhi esse material como tema desse primeiro livro porque achei que essa história era a mais importante, aquela que merecia ser contada primeiro.

Quando leio Nabokov, Sade, Pessoa ou Miller, não saio na Internet procurando pela foto desses escritores. E mesmo que por acaso acabe por ver a foto de algum deles em algum artigo, olhar para a cara deles não vai fazer com que eu deixe ou não de lê-los. Porque o que aprecio nesses autores é a escrita. Não, eu não estou me comparando a Nabokov, Sade, Pessoa ou Miller, não seria tão estúpida ou tão pouco humilde, ainda mais porque tenho consciência do quanto ainda sou uma formiguinha nesse meio literário, no quanto ainda tenho que melhorar e quero melhorar; o que quero dizer com isso é que escrevi um livro por ser apaixonada pelos livros. Um dia vou ser muito grande nisso, e conto com a ajuda de todos vocês nesse processo.

Abraços,
Paula Lee.





Paula Lee
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