O pretérito
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O texto abaixo faz parte da série de posts sobre o título do livro. Vá para a página «O título» para ler a introdução.
Ainda tentei reescrever o livro no pretérito, mas quando fazia a leitura em voz alta era como se não tivesse acertado no tom, porque todas as anotações, os diários, as 1100 páginas escritas no Word, os pesados álbuns fotográficos, não me mostravam o passado, mas me traziam as emoções que eu sentia naquele presente, naquela hora. Enquanto analisava todo o material que tinha em mãos, eu não viajava ao bordel como a mulher que hoje sou, mas voltava a ser a mesma menina que era quando cheguei.
Para falar de experiências sexuais, nem é necessário tê-las ou vivê-las. Basta se basear no volume de informações que temos hoje sobre o assunto, ter um mínimo de criatividade e escrever uma história, de preferência uma história que deixe a todos com os olhos arregalados e queixos caídos. Para falar de prostituição também não é necessário ser prostituta, só os mais de 700 textos que publiquei no blog ao longo de um ano e alguns meses já dão base suficiente para qualquer pessoa que se interesse em desenvolver uma ficção sobre o tema.
O foco principal do livro não são as experiências sexuais, ou diria, as fantásticas e excêntricas experiências sexuais de uma prostituta. Não é um livro que vai fazer você arregalar os olhos nesse sentido. Numa época em que temos mais informação sobre sexo, na nossa vida e inclusive na literatura, não quis entrar por essa mesma porta. O que deveria colocar nesse livro para chamar a atenção? Sexo anal? Sexo lésbico? Swing? Todo mundo já não viveu isso, ou se não viveu já não ouviu falar? Claro que também descrevo os programas, mas quando o faço o foco é a sensação, e não o acto.
Porque antes de falar de prostituição ou de experiências, o meu primeiro foco, nesse livro, é a inexperiência, a primeira vez. Você pode me falar dos dez mil homens ou dez mil mulheres com quem você foi para a cama nos últimos tempos. Mas se eu te perguntar sobre a sua primeira vez, o seu tom será outro, o seu olhar será outro, a sua emoção será outra, assim como você também será outra pessoa no momento da descrição.
O livro fala do quotidiano dentro de um bordel, o primeiro bordel e as primeiras experiências neste. Nesse bordel que também chamo de «Quartel» (capítulo 39) um homem jamais nos chamaria de prostitutas, ou usariam a palavra puta, é verdade que às vezes as palavras são ofensivas apenas de acordo com o tom e a intenção, mas lá era regra, essas palavras não podiam ser pronunciadas pelos clientes, com ou sem boa intenção. E apesar dessas palavras não serem pronunciadas na «Casa das Gajas Sérias» (capítulo 51), por vezes o primeiro confronto eram com os sinónimos, com as palavras usadas para suavizar, e com os conceitos que acabam impregnados em nós. Apesar de não me chamarem de prostituta, era bastante clara, comum e repetitiva a definição de que eu vendia o meu corpo.
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