O título
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O texto abaixo é uma introdução de uma série de textos sobre o título do livro. Veja no fim da página a lista de todos os textos da série.
Apesar do verbo estar conjugado no presente, «ALUGO O MEU CORPO» não é um livro que fala dos meus tempos actuais, e a razão é bem simples: sobre a fase actual qualquer pessoa com acesso à Internet pode ler no meu blog (www.amanteprofissional.com/blog) e para o livro queria explorar algo novo, inédito. (Leia o texto da página «O pretérito»).
Hoje o que alugo é o meu tempo. O amigo que vem me visitar - primeiro ele vem como cliente, mas só permitirei um próximo encontro se perceber que terá condições para se converter em “cliente-amigo”, porque, se não tiver um mínimo de ternura, nem que seja entre as quatro paredes do meu quarto, não vejo razão para voltar a estar com ele, afinal só cedemos a nossa intimidade para pessoas íntimas - apenas me recompensa pelo facto de saber que tal tempo que lhe dispenso poderia ser reservado para outra pessoa ou outra actividade. Num Tempo em que ninguém tem tempo para ninguém, para olhar nos olhos, tocar e sentir, a minha actividade hoje se converte numa terapia. Entretanto, há muita coisa que não é negociável (compreenderão ao ler o capítulo 52 do livro.) Há coisas que não estão “na tabela”, que são dadas gratuitamente, como o carinho, a atenção, a ternura. Coisas estas que dou e que também recebo das pessoas com quem convivo hoje.
Mas apesar da minha postura actual - uma postura que não nasceu pronta, mas que é fruto de várias experiências e reflexões, e inclusive de mudanças de conceitos durante o meu percurso - ainda hoje insistem que VENDO O MEU CORPO. O facto de receber clientes no meu quarto não quer dizer que estou vendendo o meu corpo. É verdade que às vezes conhecemos pessoas que estão dispostas a vender tudo, que são capazes de vender a própria mãe se alguém oferecer uma quantia razoável, mas essa pessoa não precisa de ser prostituta para agir dessa forma, porque se a índole dela for esta, ela vai fazer o mesmo, independente de ser prostituta, advogado, dentista, empregado de balcão.
Eu não vendo o meu corpo hoje, e mesmo naquela altura em que trabalhava em bordéis eu também não vendia, no máximo alugava. O “cliente”, quando procura pela “prostituta”, não leva o corpo dela para casa, como também não pode um dia pensar em “revendê-lo”.
Um corpo não é apenas matéria. Ele é também uma capa que às vezes esconde o que realmente somos, ou que por vezes mostra exactamente quem somos, bastando ter olhos para ver. Se você enxerga um corpo apenas como matéria, nunca poderá visualizar esse corpo por inteiro, esse corpo com alma e vida. Não sendo o meu cliente um necrófilo, se ele compra o meu corpo ele leva também a minha alma, mesmo quando, por acaso, consideraria um item ou acessório dispensável.
Na história do bordel que relato nesse livro, havia um tempo fixo para que eu atendesse os clientes, e o respeito a esse tempo era mais importante do que propriamente o atendimento, mais importante que o cliente, e até mais importante que eu própria. Com a sensação nítida e crua de um comércio, entre a estranheza das frases ditas de que vendia o meu corpo, a história relata a luta pela autonomia (inclusive para a liberdade sexual) dentro de regras infundadas, onde o corpo era alugado por tempos de meia hora.
Páginas relacionadas:
- Vender o corpo
- O pretérito
Paula Lee
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