«A corajosa vida de uma prostituta»

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Na revista Focus nº 403, de 4/6 a 10/07/2007, deverão ter notado uma frase que eu disse, que finaliza a entrevista que dei:

«Nos dias de hoje, em que a mulher é tida cada vez mais como objecto, em que as dificuldades financeiras aumentam, é mais corajosa aquela que não é prostituta do que aquela que o é.»

Recebi vários e-mails, alguns a elogiar, outros sem entender a razão dessa minha conclusão. Já era um assunto do qual queria falar, e como a resposta não é simples, essa página servirá para isso.

As pessoas costumam me dizer que fui muito corajosa por ter atravessado um oceano sozinha, por ter decidido aceitar a proposta de vir me prostituir em Portugal. Dizem que fui muito corajosa por ter passado tudo o que passei. Estão erradas? Claro que não. Não foi fácil de repente me ver a ter uma vida completamente diferente daquela que tinha, a mudança de cenário e ambiente, o primeiro homem com quem claramente fazia sexo por dinheiro, o convívio no local, as limitações, o reflexo psicológico, etc. Mas isso também não faz com que eu seja mais corajosa que uma mãe solteira que cria um filho sozinha, que uma pessoa “comum” que também enfrentará limitações e desafios no seu dia-a-dia. O único detalhe é que o facto de ser prostituta vira livro e é falado, mas muito menos facilmente isso hoje aconteceria com impacto igual se fosse por exemplo uma mãe solteira (a não ser talvez se o livro fosse editado na China).

Sempre deixei claro o quanto admiro as pessoas que escolheram ser acompanhantes, são estas as verdadeiras acompanhantes, e apenas estas deviam ser acompanhantes, caso o mundo não fosse o que é. E eu, como muitas outras que conheço, infelizmente - ou não tão infelizmente assim, afinal tudo na vida é lição - não coloquei uma lista de hipóteses profissionais na minha frente e escolhi que afinal queria vir ser “prostituta” em Portugal.

Apesar de todos os avanços, de todas as conquistas - importantes - dos últimos tempos, a sociedade ainda “prostitui” a mulher - mesmo ela não sendo conhecida como prostituta. A sociedade faz da mulher um objecto, um produto, estabelece valores para essa mulher. Vemos isso por todo o lado: seja na publicidade ou até mesmo no comportamento das pessoas, inclusive até no comportamento de algumas mulheres, que não têm outra alternativa a não ser o de se limitar ou seguir tais padrões estabelecidos.

Começando por um exemplo que para alguns pode parecer banal, quantas e quantas vezes, num quarto com um cliente, ele não me disse que procurava acompanhantes porque a mulher dele estava velha, que queria trocar a esposa de 60 por 3 de 20? Quantos anos ele tem? Também 60, ou bem mais. Ele pode envelhecer, mas ela… não, ela não pode. Ele pode ser feio, careca - haha, isso só ele pode, mas entendam, não é uma crítica, porque eu particularmente até acho um charme um homem careca - barrigudo, mas ela não pode. A mulher começa a ser desvalorizada quando ela não tem aquela imagem de propaganda.

Estou falando apenas num aspecto geral. Sei que há pessoas e pessoas e que - para o bem da Humanidade - há aquelas que, felizmente, não são assim.

Numa sociedade em que vivemos hoje, que apela pela imagem da mulher, que apela pelo sexo, que apela para que esta mulher possa valer enquanto imagem, que reduz o valor da mulher, é relativamente fácil se tornar prostituta. Basta uma decisão, um número de telemóvel e um anúncio (e mesmo se tiver que ser assim, por favor, pelo menos não esqueçam da caixa de preservativos). O resto, claro, é o que é mais difícil. Entretanto, não ceder - ou não ceder apenas em função daquilo que pode parecer hipoteticamente uma solução mais fácil - que faz dela mais corajosa.

A mulher não é prostituída apenas porque pratica a prostituição. Ou os casamentos arranjados, apenas porque foi imposta a monogamia, não foram também uma forma de prostituir a mulher?

Não é prostituta apenas aquela que atende clientes e faz disso a sua fonte de renda principal. Qualquer pessoa, independente de ser homem ou mulher, que está com outra em função de algum objectivo ou vantagem, e não pela troca que há entre eles de sentimentos ou sensações, é também prostituta(o).

Não fui corajosa apenas e simplesmente pelo facto de ter vindo para ser prostituta. Fui corajosa sim, pelo facto de ter feito alguma coisa quando alguma coisa devia ser feita. Fui corajosa por não ficar à espera de algum milagre, corajosa pelo facto de não ter jogado as minhas responsabilidades para cima de outras pessoas, corajosa pelo facto de ter lutado, de ter enfrentado as adversidades. Mas se ao invés de ter vindo ser prostituta, se tivesse exercido outra profissão, seria menos corajosa? Não, seria corajosa na mesma.

Há uma frase que costumo dizer sempre, mas desconheço a autoria (se alguém souber, por favor me avise, para adicionar aqui; achei duas referências como sendo de F. Véron, mas não tenho certeza): «Coragem é a arte de ter medo sem que ninguém perceba».

Hoje, e talvez diga isso em função do número de e-mails que recebo nesse sentido, noto uma banalização da prostituição. Não quero dizer que as minhas motivações sejam mais importantes que algumas dessas pessoas, que a minha vida tenha sido mais difícil que a de algumas dessas pessoas. Mas de umas outras, disso tenho a certeza. Recebi alguns contactos nos últimos tempos, desde que criei o blog Amante Profissional, em que noto claramente essa “banalização”. Meninas que, na primeira dificuldade que encontram na vida, por menor que seja, já pensam logo em se prostituir. Sim, parece que estou a exagerar, mas não estou. «Ah, meu pai não quer me dar o que quero, por isso vou ser independente, vou ser prostituta», «Preciso urgentemente colocar silicone no peito, por isso vou ter que ser prostituta», «Não quero ter que trabalhar, por isso vou ser prostituta.» Sério, juro que nunca pensei que conheceria uma banalização desse tamanho. Pior que isso, há meninas que até me enviam fotos, dizem “olha só, sou bonitinha, será que vou conseguir ser prostituta?”, achando que para tal apenas é necessário ter imagem. E quando eu digo que não é assim que a banda toca, quando explico quais são os dois lados da moeda, muita gente não acredita, afinal parece que estou fazendo isso com medo da “concorrência”, quando na verdade apenas gostaria que, caso viessem mesmo a decidir - e só será por conta própria, nunca irei influenciar nesse sentido - por se tornarem prostitutas, que pelo menos pudessem saber o que isso implica, quais as adversidades que terão que enfrentar, aquilo que terão que aprender, etc.

Na maioria dos casos, as garotas que me contactam com o intuito de saber informações sobre a prostituição querem saber o quanto podem ganhar, mas não parecem nada interessadas com o que vão ter que oferecer. Mas não são só as meninas que querem saber quanto podem ganhar. Na maioria das entrevistas que dou, geralmente os jornalistas também fazem essa pergunta, querem saber quanto eu ganho. (O que é no mínimo curioso. Afinal nunca pergunto aos meus clientes quanto eles ganham. Também não vejo ninguém perguntando para outra pessoa, sem ter tanta intimidade, quanto esta ganha. Também não vejo como hábito os jornalistas perguntarem para os políticos, cantores, escritores, etc., o quanto eles ganham). Habitualmente dou respostas muito vagas nesse sentido, justamente porque sei que o valor monetário pode ser decisivo para algumas pessoas. Mas se agora você me pergunta: “uma prostituta pode vir a ganhar mesmo muito dinheiro?” a minha resposta é uma metáfora, “pode, depende do quanto ela está disposta a perder de si mesma”.

E agora você me pergunta: por que a prostituição está tão banalizada? Porque o sexo está banalizado, porque a mulher foi banalizada. Todo mundo pensa que a prostituição depende apenas da imagem, quando na verdade não depende. Todo mundo pensa que para praticar a prostituição é apenas necessário um corpo, quando na maior parte das vezes é necessário usar muito mais a cabeça. Todo mundo pensa que a prostituição é apenas sinónimo de dinheiro, quando, se uma mulher pensar em se prostituir apenas em função do dinheiro que ela vai receber, muito possivelmente será a que menos dinheiro irá ganhar, como também será aquela que terá os piores clientes. É óbvio que vivemos numa sociedade de consumo que apela por uma imagem, mas a imagem, apenas por si só, não basta, afinal de contas quantas outras pessoas também não vão concorrer com a imagem? Se digo para uma aspirante a prostituta: «Ok, você quer ser prostituta, mas prostitutas já há muitas por aqui como em todos os lugares, o que você acha que tem a acrescentar na actividade?», as respostas geralmente são silenciosas.

Quis escrever o livro “Alugo o Meu Corpo” não por uma questão de vaidade, de me achar tão corajosa e importante para já ter a minha biografia - ou autobiografia - ainda tão jovem. Mesmo se não fosse “prostituta”, muito possivelmente me interessaria em escrever algo sobre os “(sub)mundos marginalizados”. Tendo eu a visão de dentro, tendo tido a oportunidade de vivenciar todas estas experiências, não poderia perder a oportunidade de relatar essa realidade. Poderia ter começado com as minhas histórias eróticas, aquilo que vivo hoje com mais humanidade, mais carinho, mais tesão… mas resolvi escrever o “Alugo o Meu Corpo” mais pelo seu teor social.

A entrevista na revista Focus também revelou que pretendo escrever ficção baseada em histórias de pessoas “normais”. Pretendo um dia escrever sobre outras pessoas corajosas que não são necessariamente prostitutas, ou que não estão necessariamente envolvidas no mercado do sexo. Se quero continuar a falar do sexo? Sim, claro que quero, não pelo que tem de apelativo, mas justamente pelo facto de estar tão banalizado e merecer análises mais profundas, por aquilo que ainda está para se desvendar. Mas tenho que esclarecer aqui que esse é apenas um dos meus projectos para o futuro, e não sei se é um futuro para daqui a 2 anos ou daqui a 20.





Paula Lee
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