Autobiografia

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Minha mãe - como toda boa mãe - me contava estórias à noite, era apenas dessa forma que conseguia adormecer tranquila. É estranho me lembrar tão bem dessa época, bem melhor do que me lembraria do que comi no almoço na semana passada, mas me lembro sim, perfeitamente, com todos os detalhes. Lembro da forma com que ela se sentava para me contar a estória, do seu cheiro, um cheiro que defino como “cheiro de mãe”, do seu bafo quase encostado à minha cara, da mão que mexia no meu cabelo. Lembro da infância com uma nitidez absurda. Lembro da pequena casa que na época parecia um palácio por me parecer tão alta, dos brinquedos que meu pai construía artesanalmente para mim, das crianças na escola, das professoras que ainda hoje chamo de “tia”, das músicas que meus pais ouviam, dos vizinhos, da tv em preto e branco e do programa do Chacrinha, da primeira árvore que plantei, do pé de jabuticaba, dos primeiros sabores que experimentei, do meu primeiro cão, de tudo o que conhecia de mim, da personalidade que ainda estava por se formar, e, claro, dos livros, os livros que ainda consigo reconhecer até pelo cheiro.

Entretanto, apesar de gostar que minha mãe e outros parentes me lessem estórias - com tantos contos-de-fada, príncipes encantados e sapos - o que mais queria era poder ler, eu mesma, esses livros. Desde criança já tinha esse instinto da independência em mim. Olhava para todos os livros da estante, e angustiava-me saber que só saberia o que ali estava escondido se alguém lesse para mim.

Minha mãe, entretanto, me achava muito nova para aprender a ler. Receava que isso me embaralhasse a cabeça no futuro. Mas influenciada por uma outra pessoa próxima que não quero dizer quem é e tenho minhas razões para isso - porque não conseguiria falar dele sem citar a importância que teve no Brasil na época da ditadura militar - e também convencida pelo meu interesse e insistência, ela acabou cedendo. Foi assim que, ela e a tal pessoa - In Memorian - me ensinaram a ler e escrever.

Aprender a ler e escrever foi, com certeza, o primeiro acontecimento marcante da minha vida, ou do pequeno pedaço de vida da menina de 3 anos. Era como se, ao aprender a ler e escrever, eu tivesse pela primeira vez me tornado gente, ou tivesse a consciência de que sim, agora pertencia ao Universo.

E o tempo foi passando, e eu tinha um acesso sem restrições à biblioteca particular “dele”. Quando enfim entro na escola, e todas as crianças aprendiam a juntar as letrinhas, eu já lia Vinícius, Drummond, Machado, Eça, Bandeira, Cecília, Clarice, entre outros tantos (e inclusive me sentia íntima o suficiente para tratá-los por apenas um nome).

Aprender a ler era uma espécie de passaporte que me permitia entrar num outro mundo. Naturalmente, isso trouxe-me problemas na escola. Era a preferida de todos os professores, mas não tão amada assim entre os alunos, que se aproximavam de mim apenas quando queriam copiar minhas respostas nas alturas dos exames, excepto com uns poucos amigos, com os quais a amizade aconteceu de forma espontânea e sem qualquer interesse oculto, apesar de me relacionar muito melhor com os adultos do que com as crianças da minha idade.

Também elogiavam muito a minha escrita, a minha espontaneidade, a minha reflexão tão avançada para a idade que tinha. Tinha cadernos e mais cadernos, recheados de textos.

Quando não há mais nenhum livro novo na biblioteca “dele”, começo a recorrer às Bibliotecas Públicas, afinal a família não tinha posses suficientes para comprar livros. Mas ao invés de continuar com os clássicos, desperta-me o interesse por livros de autores desconhecidos. «Conhece esse livro?» - perguntava para a bibliotecária ou para algum professor. Quando a resposta era negativa, era aí sim que eu teimava que leria aquele livro.

Com menos de 8 anos de idade eu já “vendia” os meus textos. Havia um senhor perto da minha casa que era a pessoa que mais tinha “posses” no local. Ele me dava livros, ou revistinhas de banda desenhada, ou melhor, ele não me dava, fazíamos uma troca, e essa pessoa também foi muito importante na minha vida porque desde cedo me ensinou a batalhar pelo que queria. Ele me “encomendava” um texto, eu ia para casa afoita, começava a escrever, corrigia, tentava fazer o meu melhor. Entregava a minha “pérola” com medo da rejeição, com medo da crítica, mas entretanto ele vinha cheio de elogios, e o trato era esse: eu dava o texto pra ele, e ele me dava o tal livro ou revistinha. É claro que tenho consciência que, naquela altura, meus textos não eram assim tão bons o quanto ele dizia para me estimular, mas com certeza foi muito importante aquela lição que aprendia.

Pobreza não é sinónimo de falta de cultura. Ali no meio onde vivia, apesar de nenhuma pessoa ter um curso superior, convivia com artistas talentosos das mais variadas áreas: escritores, poetas, pintores, músicos, artistas plásticos, etc. Fui uma abençoada por ter nascido naquele meio.

Tive o privilégio de ter conhecido esses artistas que o mundo não conhece. Tive o privilégio de conviver com pessoas que, apesar de não terem recursos, nunca deixaram de ser artistas. Conheci pessoas que faziam trabalhos artesanais lindíssimos com aquilo que encontravam no lixo, pintores que extraíam a cor da tinta das plantas, ou seja, pessoas que não se limitavam em função do que não tinham, mas que tentavam praticar a arte com aquilo que podiam ter perto delas. Porque a arte estava impregnada nelas: no olhar, nos gestos e nos sentimentos. Tudo o que viam, o que tocavam ou sentiam era convertido em arte.

Nunca vi a “Monalisa” pessoalmente, nunca viajei o mundo para conhecer todas as galerias de arte, nunca, nem ao menos, quando morava no Brasil, cheguei a comprar livros novos nas livrarias. Tudo era muito caro e inacessível para o meu bolso (por isso as bibliotecas e alfarrabistas). Mas isso não me impediu de crescer, de buscar. Não ter visto nenhum quadro famoso não me tornou menos sensível à beleza da arte. Não querendo de forma alguma fazer pouco caso de qualquer artista consagrado, não me me causou nenhuma indignação não conhecê-los. Muito pelo contrário, me sentia uma privilegiada porque, para ver tais quadros famosos, qualquer pessoa que tivesse dinheiro poderia viajar e ver. Para ver aquilo que eu via ali, bem do lado da minha casa, só eu podia ver. Eu, na minha própria rua, tinha o privilégio de conhecer o que o mundo não conhecia. Tinha o privilégio de, inclusive, conhecer manifestações artísticas que não dependiam de um mercado ou de um padrão. Conhecia artistas livres.

Como não poderia deixar de ser, o meu acesso às bibliotecas também me abriu as portas para as fundações culturais. Claro que tenho a consciência que perto das pessoas que lá estavam, grandes na literatura, eu era apenas uma formiguinha, e que as portas estavam tão abertas justamente pelo facto de ser uma criança, de ser bonitinho ver uma criança que gosta de escrever. Mas me serviu imenso como incentivo, com eles aprendi muito do que sei hoje. Lembro com imensa precisão de um dos projectos literários onde participei, junto com mais algumas dezenas de autores, e onde, naquele evento, eu era a mais solicitada na sessão de autógrafos. Por que eu era a mais importante ali? Por que era a que escrevia melhor? Não, porque era a mais jovem. Por isso que ainda hoje, quando vou ao Brasil, faço questão de voltar à Fundação, ao centro cultural e à biblioteca, e inclusive de incentivar as crianças que, assim como eu, começaram cedo a paixão pela literatura. Elas precisam do mesmo incentivo que tive, precisam saber que devem seguir em frente, que não importa a qualidade daquilo que fazem hoje, que o importante mesmo é não deixar as páginas brancas e vazias. Escrever é uma forma de soltar o pensamento, e inclusive de alimentá-lo. Escrever é como alimentar um pássaro livre, ao invés de alimentar um pássaro na gaiola.

Os textos que escrevi na infância foram com certeza os piores que escrevi. Como, ao mesmo tempo, são os melhores que já escrevi até hoje. Foram os piores porque não tinham qualquer preocupação exagerada com a escrita, estilo, etc., em resumo, com a qualidade da escrita. Ao mesmo tempo são os melhores também por causa disso, porque, sem essa preocupação, os textos saíam mais soltos, mais livres como um pássaro no céu, e tão puros quanto uma criança. Foi justamente essa pureza, o pensamento livre que não é condicionado pela vida adulta de hoje - uma vida adulta em que habitualmente seguimos regras de conduta - que tentei aplicar no meu livro «Alugo o Meu Corpo». Queria que o “Alugo o Meu Corpo” não se limitasse à intimidade do quarto. Queria que ele fosse escrito com a mesma pureza da criança, a mesma frontalidade, saber misturar a observação atenta da criança com a observação da mulher adulta, captar metamorfoses, poder ir além daquilo que se pode ver com os olhos, explorar todo um ambiente de contrastes. Quantas e quantas vezes, quando crianças, os adultos não limitaram nossos actos mais espontâneos? O que queria para esse livro era a mesma espontaneidade da criança, porque, se for para viver num mundo adulto em que as pessoas mentem, ocultam sentimentos, camuflam emoções… eu prefiro ser criança para sempre. Assim é a minha alma, e assim também é a minha escrita. Aliás, não sei se saberia escrever sem essa espontaneidade, sem esse pensamento livre. Se fosse para escrever um livro igual aos outros, se o pensamento se limitasse às regras e aos estigmas, qual a utilidade de escrevê-lo, se já estaria escrito por outras mãos? Sei que é no mínimo incomum dizer que usei a criança que há em mim para escrever um livro que tem o sexo e a prostituição como pano de fundo. Mas é a criança que dá mais riqueza ao texto. A mulher pode ver aquilo que hoje já não lhe causa estranheza, enquanto a criança vê tudo com o sabor da primeira vez, com a curiosidade que é sua característica, a vontade de desvendar e explorar Universos.

Jamais poderia imaginar, naquela altura, que o meu primeiro livro em “carreira solo” seria o “Alugo o Meu Corpo”. Ele não foi um livro planeado. Apesar do tema ter aberto algumas portas, também tenho a consciência do quanto me limita enquanto autora. Primeiro porque sei que escrevi o livro em função da paixão pela escrita, e não por ser acompanhante, mas pouca gente sabe disso. Em segundo lugar porque, excepto algumas pessoas do meu convívio, ou outras que terão a cabeça mais aberta, o meu livro acaba por vir com o preconceito, o estigma, ou seja, por falar da prostituição as pessoas podem acabar por concluir a história - como se soubessem dela - ou por criar expectativas quanto a algo apenas fundamentado pelo erotismo ou por alguma vulgaridade. Apenas para dar um exemplo, recebo muito mais telefonemas e e-mails de pessoas que pretendem marcar um programa comigo, do que propriamente de pessoas que querem falar sobre livros, mesmo quando me contactam em função de terem visto o livro nas livrarias. Mas é claro que eu também tenho consciência de que o número de pessoas que recorrem a acompanhantes é muito maior do que o número de pessoas que, assim como eu, são leitoras de livros pela paixão que têm por eles. Por isso eu também sei que o livro não será lido apenas por aqueles que gostam de literatura, como talvez também por aqueles que apenas se interessam pelo mediatismo do tema, ou porque esperam que vulgarize a questão. Por isso que, ao contrário do que poderia imaginar antes, a minha maior luta será vencer o preconceito que algumas pessoas terão quanto ao livro.

Após a literatura, a minha proximidade maior é com a música. Antes dos 11 anos de idade já tinha conseguido compor a minha primeira canção. Hoje é diferente, porque toco guitarra (clássica) e tenho meios tecnológicos que facilitam a minha tarefa. Entretanto naquela época, sem um instrumento para me dar o tom, sem um gravador (para me lembrar no dia seguinte como era o ritmo), era muito mais difícil. Faço da composição um complemento da escrita. Gosto de compor porque, mais uma vez, consigo expressar o meu pensamento em forma de letras.

Com a leitura e com a escrita sou completamente compulsiva. Leio e escrevo por prazer, e inclusive por necessidade. É como o ar que respiro. É o ar que respiro. Sinto que, se passasse um dia sem ler ou escrever, é como se eu fosse explodir a qualquer momento. Tenho essa necessidade de colocar o meu pássaro para fora da cabeça. Não consigo ter pensamentos engaiolados.

Agora que consegui realizar o sonho de publicar o meu livro - um sonho que, sejamos honestos, apesar da minha paixão pela escrita e pelos livros, talvez não tivesse sido assim tão fácil de realizar caso a minha actividade actual não favorecesse - o meu objectivo é continuar a melhorar a minha escrita, e desenvolver outros trabalhos dentro dessa área. Tenho a vantagem de ser muito produtiva, de ter ideias que brotam a cada segundo, isso derivado, possivelmente, ao tal meio onde vivi, de pessoas que criavam a arte mesmo sem ter recursos.

O facto de ser hoje acompanhante não influenciou negativamente na minha escrita ou no meu gosto pela leitura, afinal não comecei a escrever depois de ser acompanhante, simplesmente continuei o que antes já fazia. E hoje as pessoas - clientes e/ou leitoras do meu blog pessoal - são muito importantes para o meu desenvolvimento; elas que me incentivam, algumas até me oferecem livros, ou seja, elas que também me ajudam a crescer!

E viva a arte!





Paula Lee
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