«Uma puta escritora»

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O blog Amante Profissional (http://amanteprofissional.com/blog), nem o blog de contos eróticos (http://amanteprofissional.com/contoseroticos) que foi lançado antes foram as minhas primeiras experiências na Internet no que diz respeito aos blogs. (E, aqui tenho que voltar a enfatizar, blog para mim é apenas experiência, laboratório de escrita, rascunhos, textos soltos, movidos pelas ideias imediatas, prontas e sem qualquer rigor a se seguir como regra).

Antes de lançar oficialmente esses blogs hoje conhecidos, tive outros, dentro de outras temáticas, onde fazia as minhas experiências no mundo virtual. Alguns blogs me serviam apenas como espaço para testes, e outros para experiências mais alargadas. Deletei todos esses blogs quando resolvi colocar no ar o Terapeuta Sexual (http://terapeutasexual.blogspot.com, que depois se transformou no Amante Profissional), visto que, nos outros, não revelava a minha “identidade”, ou melhor dizendo, minha dupla identidade.

Assim como o que aconteceu com os blogs, a escrita não foi a minha primeira experiência apenas “depois de ser prostituta”.

Em função da actualidade do tema, e em função do espaço que hoje há para se falar do assunto, ou talvez da receptividade do público ao tema, sei o quanto já é natural acreditar que a escrita do livro «ALUGO O MEU CORPO» - ou a escrita do livro, não importa o título - é apenas derivado do facto de ser prostituta, quando não é.

Ainda não era nem mesmo uma adolescente quando já tinha lido “Christiane F.” ou “A Vida Sexual de Catherine M.” - ou “A vida secreta de Catherine M., é o título que me parece mais vivo na lembrança - o que não quer dizer que já nessa altura imaginava que pouco depois dos meus 25 anos escreveria um livro também dentro da temática do sexo. Se sabia que ia escrever? Sim, mas não em função do tema, mas porque já sabia que escrever era o que mais gostava de fazer.

« (…) Paula Lee não se tornou escritora por ser prostituta, quando muito pode-se dizer-se que é uma escritora que, por acaso, virou prostituta.»

Da texto «A autora»

Escrevi um livro por ser apaixonada pela escrita. Quem escreveu o livro não foi a prostituta, mas a pessoa que é apaixonada pelos livros, porque, apenas enquanto “prostituta” escrever não é uma das minhas funções, não é “pré-requisito”. Quando recebi o convite para vir trabalhar num bordel em Portugal, não me fizeram nenhum tipo de exame – nem teórico nem prático – muito menos pediram para desenvolver uma redacção sobre o tema, de forma que assim pudesse ser seleccionada para ser prostituta.

Se você é médico e escreve um livro, quem escreve o livro não é o médico, mas a pessoa que é apaixonada pela escrita ou que quer usar a escrita como meio de informação, e, claro, o facto de ser médico apenas ajuda no facto de poder ter bagagem teórica e prática para poder falar no assunto na primeira pessoa.

Conheço muita gente que ficaria deslumbrada facilmente, ou pessoas que seriam capazes de aceitar qualquer tipo de proposta que conferisse algum “status”. Não sendo tão simples publicar um livro por uma boa Editora, essas pessoas com certeza aceitariam uma proposta de publicar um livro… mesmo se nunca tivessem escrito mais do que meia dúzia de frases, mesmo que, na verdade, nem gostassem de escrever, mesmo que a escrita fosse para eles uma espécie de tortura.

Eu poderia, simplesmente, publicar um livro de fotografias, caso a minha paixão fosse a fotografia. Poderia ter resolvido aceitar as propostas que recebi para fazer filmes pornográficos, mas a minha paixão também não é esta. Se resolvi publicar um livro com texto, é apenas porque a escrita que é a minha paixão, tão simples quanto isso. Com prazer aceitaria escrever as notas das fotografias, ou o guião de um filme, mas não me sentiria encantada por participar neles de uma forma passiva - quando sou apenas o objecto do trabalho alheio - quando a minha paixão é outra, quando “a minha praia” é outra.

Mas não sou assim tão ingénua, e sei que, apesar de não ter escrito o livro apenas em função de ser prostituta, que o facto de o ser ajudou bastante para conseguir publicá-lo. Sei que o sexo é sempre um tema actual, e que o facto de poder ter a tal “bagagem” para falar sobre isso facilita um pouco – ou bastante.

Eu sabia que um dia receberia propostas de publicar um livro “em carreira solo”, mas não seria já. E isso, sinceramente, não seria o pior dos meus pesadelos, não ia ser infeliz se ao invés de conseguir publicar o meu livro agora só o fosse publicar dentro de 30 anos. Porque, apesar de hoje reconhecer o quão grande é a alegria de ver o meu livro nas livrarias, de receber o feedback das pessoas, etc., o prazer da escrita, o prazer de escrever o livro antes de chegar até mesmo às Editoras não foi menor. Durante esses 30 anos, enquanto não publicasse o meu livro, não deixaria de escrever um único dia, não me sentiria desmotivada segundo algum, apenas perceberia que vivi 30 anos de intenso prazer.

Antes do blog – e isso todos os meus clientes que me acompanham desde aquela altura sabem – cheguei a pensar em publicar o meu livro por conta própria. Por que publicá-lo agora e não dentro de 30 anos? Porque as informações que o meu material tinha eram muito actuais, e receei que parte do seu conteúdo não tivesse muita validade daqui a 30 anos. Alguém sabe me dizer como será visto o sexo em 2030, como a sociedade o vai encarar, como será o nosso comportamento? Hoje há até quem faça sexo com os pulsos. Eu, particularmente, não consigo ver muita graça nisso, mas quem pode me garantir que, dentro de 30 anos, o sexo que descrevo, o sexo que conheço, e inclusive o prazer que conheço, não possa ser algo completamente monótono perto da “nova realidade”?

Se eu me considerasse uma escritora, poderia dizer que tenho mais anos enquanto escritora do que enquanto prostituta, porque a paixão pela escrita, que motivou a sua prática, começou muito antes de ser prostituta e não condicionada por esse facto.





Paula Lee
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