Comunicado: o dia em que vou deixar a prostituição
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Dos e-mails que tenho recebido, uma das perguntas mais frequentes é quando vou deixar a prostituição, ou se já estabeleci uma data para isso em função do livro. Aliás, muita gente concluiu por conta própria que, em função do livro, eu “mudaria de vida”.
Se eu vou deixar essa actividade um dia? Possivelmente sim, ou melhor, claro que sim. Entretanto, não seria por causa do lançamento do meu primeiro livro.
Um médico, quando publica um livro sobre medicina, não deixa de ser médico apenas porque escreveu um livro, nem se aposenta assim que o livro é publicado, muito pelo contrário, agora ele até tem mais vontade (e estímulo) de fazer mais pesquisas, de poder se especializar, justamente porque nesse momento ele pode dividir aquilo que vai aprendendo (o que faz com que o seu desejo de pesquisa, e inclusive a sua responsabilidade, agora sejam maiores).
São poucas as pessoas que, hoje em dia, largam os seus empregos e a sua vida apenas porque têm um livro publicado, e comigo não seria diferente.
É claro que qualquer pessoa que faça algo que é considerado artístico, que o faz por gosto e prazer, gostaria de exercer apenas a sua arte, arte esta que ele seria capaz de fazer até de graça, algo que aliás sempre fez de graça, com prazer e amor… nos seus tempos livres. Mas, a não ser quando ele já tem todos os meios e recursos, muito raramente ele vai deixar a sua vida, seu emprego, sua estabilidade, apenas porque publicou um livro, pintou um quadro ou compôs uma música, se afinal ele não vive só de ar, entre outras tantas razões. Que seria muito bom ele ter mais tempo para se dedicar à sua arte? Verdade. Entretanto, se ele foi capaz de criar algo apenas nos seus tempos livres, quer dizer que a sua vida “normal” não afectou no desempenho da sua arte, muitas vezes até colaborou como ponto de observação, cenário, inspiração, etc.
Tenho consciência que, na sociedade preconceituosa e cheia de regras de boa conduta, a escrita de um livro envolve também uma questão de aceitação. Aliás, qualquer coisa que você faça que precise de um público exige uma aceitação desse mesmo público. Se um político se candidata a um cargo, ele precisa ter família, ele precisa aparentar ser um homem sério, mesmo que na sua intimidade ele seja capaz daquilo que muita gente chama de atrocidade ou de “desvio sexual”. Mas vivemos de aparências, esta é a verdade, e as pessoas precisam da imagem, uma imagem que respeita os seus conceitos e as suas regras, precisam de não saber o que vai escondido, justamente porque na vida delas tudo também é assim. Sei por exemplo que seria aceite mais facilmente caso deixasse a prostituição e a seguir publicasse o livro, porque passaria a imagem da mulher que errou e se arrependeu, porque a prostituição, tão estigmatizada como sujeira e pecado, envolve toda uma expectativa de arrependimento para que se consiga tal aceitação, afinal somos bons cristãos e sabemos perdoar os que se arrependem. Mas como sabem eu não faço o tipo “Madalena Arrependida”. Cometi muitos erros? É verdade, cometi sim, alguns consciente, outros inconscientemente. Entretanto, todos os erros me ensinaram alguma coisa, coisas estas que às vezes aprendo na hora, outras que posso só entender dentro de muitos anos, mas tudo acontece de forma natural, não vou dar um passo maior que a perna, antecipar visões apenas porque todo mundo espera que assim aconteça.
Sei também da expectativa que se gera em função dos contos-de-fadas e romances baratos, em que uma pessoa tem sempre um final feliz, ou que a história é mais condicionada pelo final feliz do que pelo que ela vale enquanto história. Mas será que a vida é apenas assim? Ou melhor, será que tal final feliz é mesmo feliz? A prostituta, coitadinha, vai ter um final feliz sempre, vai deixar a prostituição e se casar com um dos seus clientes, um cliente rico que vai sustentá-la, e fazer com que ela nunca mais tenha que se deitar com outros homens. Lágrimas rolam assim que vêem que ela agora é uma mulher feliz, porque não é mais prostituta, esse é o fim que todos esperam. Teria um fim mais humilhante e patético que esse? Não creio que ser prostituta de um homem só seja melhor do que prostituta de vários homens, por mais que seja mais aceitável para a sociedade. Aliás, estar com vários homens, pelo facto de não precisar de esconder deles tais encontros, intenções, sentimentos, etc., faz com que eu não me sinta suja como me sentiria caso tivesse que dormir e acordar com o mesmo homem, quando eu saberia que este homem não representava muito para mim no que diz respeito ao emocional, mas apenas no que diz respeito ao lado material, estabilidade, segurança, etc. Portanto, até os conceitos de “final feliz” podem ser muito relativos. Quem te garante que ela será mais feliz saindo da prostituição do que casada com um único homem (um único homem que vocês não conhecem, não sabem ali o que há na intimidade dos dois, se o amor é verdadeiro ou apenas uma fachada, mais uma máscara que se coloca para ganhar a tal aceitação)?
Se já vi muitos finais felizes das minhas colegas? Sim, já vi. Algumas largaram a prostituição, se casaram e foram felizes (não exactamente para sempre, mas pronto, foram felizes), outras foram muito infelizes, enquanto outras fingem a felicidade, porque aprenderam que assim deve ser.
Vivemos aquilo que acreditamos, por isso é até bastante natural querermos dar um fim às histórias de acordo com os nossos conceitos de certo e errado. Mas às vezes nos esquecemos que não podemos nos colocar totalmente no lugar do outro.
Se fosse para deixar a minha actividade, não seria melhor ter deixado naquela “época má”, em que me sentia objecto, em que era inexperiente e imatura, quando as piores coisas me aconteciam, justamente em função da minha inexperiência? Por que razão deixaria agora, quando consegui humanizar o atendimento, quando consegui inventar “uma nova forma de ser prostituta”, uma nova forma que inclusive hoje me faz bem, faz com que eu me sinta à vontade com as pessoas, agora que tenho autonomia e liberdade, e inclusive a posse do meu corpo, de forma a só permitir que toque nele aquele que eu deixar?
Mas claro, apesar de ter deixado de ser prostituta para ser acompanhante (as duas coisas são muito diferentes), apesar de hoje viver uma fase muito boa enquanto “profissional”, sei que um dia vou deixar essa actividade. Tenho uma amiga, a B., que diz que mesmo se ela ganhasse uma grande soma de dinheiro, tipo uma lotaria, ela não deixaria de ser escort, e admiro-a imenso por causa disso. Entretanto, se tal acontecesse comigo, confesso que abandonaria logo a actividade, e não por não gostar, por desprezar, etc., mas porque, obviamente, gostaria de ter mais tempo para a escrita. Se não tivesse uma relação amorosa com o Gatito, se não tivesse ninguém, e se tivesse ganhado na tal lotaria, eu possivelmente deixaria a minha actividade enquanto fonte de renda, mas continuaria a me encontrar com os meus clientes-amigos, com a diferença de que o atendimento seria de graça.
Eu sei que um dia vou deixar essa actividade, e não é pelas razões que muitas pessoas consideram óbvias, como o desgaste físico e emocional, o avançar da idade, etc. Vou deixar porque hoje o meu tempo já é curto, e a tendência tem sido esta, cada vez tenho menos tempo para tudo. Quando estive a escrever o livro ALUGO O MEU CORPO, por exemplo, por muitos dias atendia clientes e voltava para o computador para acabar o que estava a escrever, mas muitas vezes também recusei clientes, às vezes por dias e mais dias, justamente porque precisava de tempo e de concentração.
Portanto esse comunicado não é para avisar que um dia pode ser que eu deixe a minha actividade pela minha actividade ser o que é, mas que poderia acontecer mesmo se eu fosse médica ou vendedora, ou seja, quando o tempo começa a ser curto, a gente, em dada altura, tem que escolher entre uma coisa e outra.
Paula Lee
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