O melhor marido, segundo a rainha do crime

Agatha Christie faz parte das prateleiras de toda uma - e futuras gerações. Quem nunca encontrou um livro da Agatha Crhistie no meio dos livros dos pais ou então num alfarrabista? Lembro de ler Agatha Christie desde cedo, por isso ao encontrar esse post do Walter no Dicas & Fotos* pedi autorização - que foi concedida - para poder reproduzir o seu post aqui.

O MELHOR MARIDO, SEGUNDO A RAINHA DO CRIME

“O melhor marido que uma mulher pode ter é um arqueólogo. Quanto mais velha ela fica, maior o interesse dele.” (Agatha Christie).

Comecei a ler Agatha Christie um dia depois que ela morreu, há mais de 30 anos, e durante muito tempo devorei a maioria de seus livros. Parece que no total vendeu mais de dois bilhões de livros, não sei se nos dias de hoje alguém já conseguiu superá-la.

Agatha Christie foi casada com um piloto da Real Força Aérea, mas ele a traía. Ela passou por momentos muito difíceis, sumiu por uns tempos, mas depois voltou e acabou se casando com um arqueólogo 14 anos mais jovem. O tema arqueologia serviu de leve inspiração para alguns de seus livros, como Morte na Mesopotâmia.

A Ratoeira, uma peça que escreveu baseada em seu conto Os Três Ratos Cegos, acreditem, está há mais de 55 anos em cartaz, em Londres! Acredito ser outro recorde que tem que ser computado na sua biografia. Alguns de seus livros viraram filmes. Eu vi três: O Caso dos Dez Negrinhos, Morte no Nilo e Assassinato no Expresso do Oriente. Quanto a este último, confesso que não sei se existiu um outro filme que reuniu tantas estrelas de Hollywood: Lauren Bacall, Ingrid Bergman (que levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante), Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Jacqueline Bisset, Martin Balsam, Richard Widmark, Michael York e Albert Finney, este no papel do semi-cômico mas espertíssimo detetive belga Hercule Poirot.

Dêem uma olhada no site da Rainha do Crime: => Link para o website oficial da Agatha Christie

* Dicas & Fotos é um blog com dicas culturais, artísticas e fotos cuja visita recomendo. Se quiserem também podem pedir ao Walter que envie as novidades do blog por e-mail.

Um livro não tem dono ou destinatário

Sabe o que eu acho mais gostoso num livro? É que ele não tem dono nem destinatário. O mais gostoso é saber que ele vai passar por muitas mãos, saber que muita gente irá lê-lo. Você ganha um livro e ele fica ali na estante depois da leitura, e não só você vai ler aquele livro, mas qualquer um que se interesse por ele. E isso é o que é bonito no livro, o que ele tem inclusive de “comunitário”, inclusive o que quanto ele te dá liberdade, afinal o facto de ficar ali na estante não te obriga a lê-lo, até numa biblioteca você tem milhares de opções mas vai ler apenas aquele livro que escolher.

Então veja só o que aconteceu… Há tempos que não leio o blog do Bia. Sei lá o que aconteceu que deixei de receber os posts dele no Bloglines. Até pensei que podia ser aquele problema que está dando nos feeds de quem usa Wordpress e actualiza para a nova versão, mas o Bia usa Movable Type, então não sei. Quer dizer, agora sei, a família Biajoni se mudou de cidade e por isso o blog ficou meio parado.

Mas aí veja só… Estava navegando daqui para lá e dali para cá e entrei no blog da Karen, o A Fresca. Eu, distraidérrima e pagadora de mico, ainda lia o blog e pensava assim: “Sei lá, parece que conheço esse nome e essa pessoa de algum lugar”. Eu estava ligada no blog principalmente por causa das receitas, e concentrada nas receitas porque estava tentando lembrar se alguns ingredientes encontraria por aqui, por isso não tinha antes me caído a ficha. E eu nem sempre leio blogs como a maioria das pessoas, fico pulando dos arquivos de um mês para o outro, o telefone toca e não lembro onde parei, no caso do blog da Karen lembro apenas que ela tinha me feito viajar no tempo, senti cheirinho de bolo de banana e cheiro da infância. Então chego nesse post aqui, Adeus 386, meu companheiro…, e até então eu me divertindo muito porque achava que era a única pessoa que conhecia ou ainda se lembrava do 386, e então depois ela diz «Minha sorte, ou azar, é que o meu marido está trabalhando hoje à noite, e o laptop sobrou aqui na minha mão, mas já vou terminar porque ele deve estar chegando.», até aí tudo bem, várias vezes no blog ela fala do marido, mas nada de me cair a ficha. Então ainda chego no fim do post e aí me surpreendo: «Tenho receitas pra botar aqui, mas, meu estou muito cansada, vou botar as crianças na cama e vou ler o livro da Paula Lee “Alugo o meu corpo”, comecei a ler essa semana, tá interessante…»

Aí eu fiquei assim ó, com o queixo lá no chão… Ué, ela está lendo o meu livro? Mas como? Cara, só depois me caiu a ficha… A Karen é a esposa do Bia!!! Claro que a conhecia de nome, mas sabe quando você lê um nome e pensa que é outra pessoa e não liga uma à outra porque nem se liga que são a mesma pessoa? Coisas que só acontecem comigo e com esse meu jeito atrapalhado de ser.

Fiquei muito contente de saber que a Karen estava lendo o livro. Talvez não o tenha acabado, afinal logo a seguir veio uma fase de mudanças e eu sei a trabalheira enorme que isso dá. Para aqueles que gostam de cozinhar - não é só esta a temática, o blog é bem divertido - passem no blog da Karen, eu vou só ver se consigo todos os ingredientes para testar aqui algumas receitas.

Eu só não posso é mostrar o blog da Karen para o Gatito - que adora quando eu cozinho - caso contrário todo dia ele vai me apontar uma receita no blog dela…

Editoras portuguesas na Web

Já estava para falar sobre esse assunto aqui já há algum tempo, pelo menos há um mês ou talvez dois quando constatei que houve uma mudança de visual na página da Dom Quixote: www.dquixote.pt, como sabem, a Editora que publicou o Alugo o Meu Corpo. Podem ver se quiserem, através da minha antiga página de autora, como era o visual do site da Dom Quixote, mas veja agora, pode ser que dentro de algum tempo tirem a página do ar (o que será natural, dado que estão fazendo actualizações e a minha nova página de autora já foi construída para substituir esta).

Talvez eu tenha sido a pessoa que mais insistiu para que a Dom Quixote tivesse um site na web. Lembro que falei com o meu (ex) primeiro editor sobre isso, lembro que inclusive numa reunião com o (ex) director cheguei também a falar sobre o assunto.

Eu não estava apenas surpreendida, mas também pasma e chocada pelo facto de a Dom Quixote não ter um site, algo que para mim (e para a maioria dos usuários da web) é algo inconcebível para uma empresa de médio ou grande porte.

Principalmente hoje, se uma empresa não investe no seu espaço na web… é como se essa empresa nem existisse.

Meses antes de entrar na Dom Quixote eu já tinha entrado no endereço www.dquixote.pt, entretanto apenas aparecia o logotipo e por baixo algo do tipo “em breve”. Esse “em breve” demorou mais de um ano, e isso que me causava maior estranheza, o facto de já terem o domínio e não o utilizarem como forma de divulgação na web.

E eu, que sou a pessoa mais ansiosa desse mundo, e que sempre comprei livros também online, mas que mesmo se não vir a comprá-los online gosto de ir nos sites das Editoras para ficar sabendo dos lançamentos, e porque a Dom Quixote é uma das Editoras das quais tenho mais livros em casa - assim como da Bertrand, Presença e Oficina do Livro, claro, não comprei por causa da Editora, mas por vezes você acaba reparando nisso, quais são as Editoras que preenchem mais a sua estante; que fique claro, apesar de recomendá-las não tenho nada a ver com nenhuma dessas três Editoras aqui citadas, simplesmente são as Editoras das quais compro mais livros, só da Oficina do Livro por exemplo lá se vão todos os livros da Candace Bushnell, risos, não me falta nenhum, tenho todos, por isso também estou sempre indo nessas Editoras para conferir se há livros novos daqueles autores que gosto de ler - estava quase entrando em contacto com eles para saber se não queriam que eu fizesse o site, risos, isso bem antes de ter qualquer contacto com a Dom Quixote enquanto autora, era mais um ansiedade enquanto leitora mesmo.

Então me lembro que nessa reunião com o ex director ele havia me dito que sim, já estavam a providenciar o site para o ano seguinte (para o ano de 2007), e que inclusive estavam pensando em colocar uma contagem decrescente para a entrada do site no ano seguinte, uma ideia que logo achei muito boa, afinal gerava expectativa.

Então depois eu pude deixar de ser uma leitora chata porque ele cumpriu a sua promessa, o site entrou no ar.

O novo visual do site da Dom Quixote

E agora, há pouco tempo atrás, o site mudou de visual. Eu particularmente gostei muito: está organizado, aparentemente fácil de actualizar, colorido, simples, tudo isso é muito importante. Nas fichas de cada livro adicionaram links para os comentários, opção de votar no livro, link para vídeos no Youtube, etc. Bom, nem todos têm os links funcionando, o que é natural, são muitos livros e muito trabalho para os webmasters. E talvez seja justamente por isso - pelo excesso de trabalho - que eu não compreendi ou ainda não desenvolveram bem a ideia, mas tem algo que me parece estranho.

Por exemplo, se você quiser procurar pelo Alugo o Meu Corpo lá é bem simples, basta procurar pelo título. Ao encontrar clica no título e abrirá uma descrição numa nova janela dentro do site, como se fosse a ficha do livro.

Pela minha análise isso é bom sim, entretanto em termos de divulgação não.

Por exemplo, se eu quero indicar que as pessoas conheçam o meu livro na nova página da Dom Quixote eu tenho que dar esse endereço aqui:

http://dquixoteweb.esimples.com/ficha.html?id=1856

Se eu quero que conheçam a minha página de autora o endereço é este:

http://dquixoteweb.esimples.com/ficha_autores.html?nome=Paula%20Lee

E para indicar apenas a minha página, como viram são frames, ou seja, você vai ver apenas o conteúdo. Qual é o problema nisso, o objectivo não é mostrar a ficha do seu livro? - me pergunta você. O problema é que, ao visualizar apenas a minha ficha, a Editora perde oportunidade de divulgar, através dos links das colunas laterais por exemplo, outros livros ou eventos da Editora. A questão é que depois, para a pessoa voltar para o site da Editora, terá que apagar o endereço depois do sinal / para retornar, o que, para um usuário da web, é simples mas poderia ser mais simples.

Então eu acabo tendo só duas opções: ou eu divulgo apenas esse endereço com o conteúdo apenas do meu livro ou então divulgo o endereço da Dom Quixote e obrigo o meu leitor a ter que fazer uma procura para encontrar o meu livro, e ter que obrigar leitor a fazer qualquer coisa já não é bom quando falamos de Internet.

Em termos de divulgação na web é muito importante na verdade a comunicação com outros sites e blogs e que esta comunicação e divulgação através dos links externos seja fácil. Se eu quiser divulgar o novo livro do Lobo Antunes, por exemplo, no momento posso indicar a página inicial da Dom Quixote, entretanto depois, quando o livro deixar de ser novidade, vou ter que indicar apenas a página de conteúdos. Da mesma forma por exemplo se eu quiser linkar uma notícia, vou ter que linkar apenas a página com o conteúdo da notícia, conteúdo este que é separado de todo o site, o que faz com que, linkando apenas essa página com o conteúdo o visitante não permaneça mais tanto tempo na página porque afinal esta página não oferece mais nada que estimule a sua curiosidade em conhecer - rapidamente, através de um único clique - outros artigos. A questão é esta: enquanto o conteúdo é actual é sim possível linkar o site, não o artigo, mas isso dificultará o visitante se a notícia por exemplo já for antiga.

Eu, particularmente, até penso que um site em Wordpress supre muito bem a necessidade de qualquer Editora. Veja por exemplo o site (ainda em fase de construção, não está completo ainda) que estou fazendo para o Alugo o Meu Corpo (lembre, aqui é blog, lá é site): se você for por exemplo na página Notícias você acha que fui eu que, manualmente, adicionei pedacinho por pedacinho de cada nova notícia de forma que as actuais aparecessem primeiro e cada uma em seu lugar (em “O site”, “Notícias”, “Eventos”, “A autora”, etc)? Não, o que fiz foi publicar um post e colocar cada post numa categoria em que se encaixava. Então, nessa página Notícias, que tem notícias em várias categorias, apenas com um código numa página as notícias de cada categoria são actualizadas automaticamente, ou seja, assim que coloco um novo post não preciso voltar na página Notícias para actualizá-la também. A única coisa que fiz manualmente nessa página foi mexer nas imagens, mas isto apenas porque não queria alojá-las no meu servidor, se quisesse nem isso precisaria fazer.

Mas é aquela coisa que eu estava falando: a Dom Quixote é uma das Editoras mais antigas de Portugal, tem portanto muitos livros publicados e, como começou na web apenas em 2007 quer dizer que há trabalho em excesso, ou seja, há muito trabalho para os webmasters, e então calculo que na verdade o trabalho apenas esteja incompleto e por isso, por enquanto, em termos de divulgação não seja tão simples o quanto poderia ser.

Mas foi muito bom terem mudado o layout porque assim mostra que a Editora está disposta a se actualizar constantemente.

Editoras portuguesas na Web:

Prometo para um novo post (não será agora, mas em breve) trazer aqui uma grande quantidade de links para Editoras Portuguesas. A minha análise para já, infelizmente - não sobre todas, mas pelo menos sobre as principais - não é tão positiva, apesar de não ser de todo negativa. Infelizmente boa parte das Editoras portuguesas peca num item importantíssimo: actualização, fazer do site um motor de informação principal sobre os seus produtos, nesse caso sobre os livros.

Outro item que algumas Editoras parecem dispensar é a acessibilidade do site. Querem um bonito visual mas não importam se esse visual bonito vai gerar facilidades para todos os tipos de visitantes. Se bem que… bom, como a maioria das Editoras não costumam direccionar os seus livros por exemplo para os invisuais - raramente os livros são vendidos em pdf ou em braille; uma única página em braille, segundo me informei, equivale a pelo menos 4 páginas de um livro, e nesse aspecto até entendo pelo lado comercial da coisa, seria caro e para um grupo menor que até poderia vir a não se interessar por aquele livro - por que direccionaria os seus sites? (Algo a pensar, algo a pensar… Nesse aspecto tenho que por exemplo dar parabéns à Leya que, há pouquíssimo tempo no mercado pelo menos já pensou numa coisa em termos de acessibilidade: tem um telefone de texto para surdos).

Fica então prometido: assim que puder trago vários links de Editoras portuguesas…

Alugo o Meu Corpo em Coimbra

Para quem estiver em Coimbra um amigo meu (o J.) acabou de me informar: o livro Alugo o Meu Corpo voltou a ser visto na Livraria Almedina (Estádio), algo que não acontecia já há algum tempo por lá.

A Almedina também tem uma página na web: http://www.almedina.net.

Apesar de não ter encontrado na página online da Almedina o livro Alugo o Meu Corpo (ou seja, apenas na loja em Coimbra que sei que há o livro porque esse meu amigo me avisou) se quiser também pode pedi-lo à Almedina. Para isso basta ir na página Pedido de livros, preencher o seu nome e o seu e-mail e os dados do livro que procura.

Os dados do Alugo o Meu Corpo são estes:

Nome do Livro: Alugo o Meu Corpo
Autor: Paula Lee
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722033527

Série “Dias Incompletos”: O Sexo e o Livro

É sempre um risco falar sobre um livro, até porque este, quando nos chega às mãos, torna-se algo no mínimo íntimo, algo só nosso.

E ao mesmo tempo só nosso… também de todos, até porque é nosso apenas aquele exemplar que temos nas mãos, exemplar este que levaremos para a cabeceira e para a cama, até que então, no seu minuto de paz - e desassossego nosso - ele poderá se aconchegar junto aos outros na estante.

O livro é ao mesmo tempo uma virgem e uma vagabunda, um anjo e um demónio.

Ler um livro talvez seja isso: uma noite - ou simultâneas, sem tempo programado - insaciável de sexo. E um livro será tão bom o quanto mais insaciável for o desejo que nos desperta. (Aquele livro parado ao meio nada mais foi do que isto: uma noite ‘brochante’ em que o desejo acabou. “Culpa do livro”, você dirá, porque por ingenuidade - machismo ou inexperiência - acreditará ser obrigado a sentir tesão por todos os tipos de pessoas. “Isso nunca aconteceu antes”, talvez você responda, ou talvez apenas feche as páginas tentando esquecer. E nesse caso nem adianta tentar: não há viagra que faça você sentir tesão por um livro.)

E o livro é tão nosso naquele momento… e de todos os outros. Será objecto de culto de outros olhos, de outras mãos, de outras mentes e de cada tipo de imaginação (mais ou menos criativa, mais ou menos perversa).

Entrar num livro é fazer sexo e ao mesmo tempo masturbar-se sozinho.

Ao mesmo tempo que é um clone é um livro só. Ao mesmo tempo infiel mas sempre leal e autêntico, de todos mas apenas nosso. Porque mesmo sendo produzido por número de exemplares, mesmo sendo a mesma história, a mesma capa, linhas e palavras nas mesmas páginas… o mesmo livro não despertará as mesmas emoções e pensamentos nas mesmas pessoas.

Ninguém gozará de forma igual o mesmo livro.

Um livro necessita de entrega. Ler um livro sem haver entrega é o mesmo que fazer sexo pensando na conta de luz que tem que pagar amanhã.

Há quem o abra com as duas mãos pegando na beirada das folhas e meta o nariz ali no meio… o que isso te lembra? Sim, sentir o cheiro do livro talvez tenha alguma coisa a ver com sentir o cheiro do sexo. O livro é um conjunto de novas pernas abertas a cada vez que você muda uma página.

E quanto mais as pernas se abrem mais você se entrega, se dá, se envolve. Mas no final de tudo quem é penetrado é você.

Talvez alguns se sintam constrangidos em ler esse texto, “de onde se viu uma mulher comparar o livro com o sexo?”, até porque muita gente acha que o sexo e a literatura são coisas completamente separadas uma da outra, esquecendo que o sexo é e foi tema de grandes autores, e não apenas dos chamados “autores marginais”.

Há inclusive quem tenha a ideia de que o livro apenas interesse às pessoas mais insossas, mais moralistas, mais antiquadas. O livro, entretanto, não é algo para nos esconder, mas algo para nos revelar. O livro, enquanto também objecto de prazer, não poderia ser menos que isso: algo que dá tesão. Não há motivo para ler um livro se não for este: sentir tesão, sentir um enorme tesão.

Um tesão, explico, que não é condicionado pelo seu teor. Um livro de ficção científica talvez possa dar mais tesão do que um livro erótico, depende apenas daquilo que você sente e da forma que se entrega. Tesão que não é - apenas - físico, mas que ultrapassa a carne. Ler não é apenas um acto passivo, mas sobretudo activo, mesmo sabendo que no final quem é penetrado é o leitor. Ler é sexy, ler é erótico, ler é entregar-se ao sexo, ao prazer, ao tesão.

O conceito de erotismo varia de pessoa para pessoa. Para mim, mais erótico do que um homem deitado na cama, nu e de bunda para cima a cheirar o sexo de uma mulher… é um homem deitado na cama, nu e de bunda para cima a cheirar as páginas de um livro. Porque o homem deitado na cama, nu e de bunda para cima a cheirar o sexo de uma mulher é algo que eu posso ver, um homem deitado na cama, nu e de bunda para cima a cheirar as páginas de um livro é algo além, algo que vai para lá da visão e alcança o imaginário.

Até o sexo depende da imaginação, caso contrário não seria real.

Olho para o homem deitado na cama, nu e de bunda para cima a cheirar o sexo de uma mulher e concluo, sem fazer perguntas: Ele sente desejo, ele sente tesão, o pau dele está duro. Ponto final, acabou. Olho para o homem deitado na cama, nu e de bunda para cima a cheirar as páginas de um livro e faço perguntas querendo desvendá-lo: O que ele sente? O que ele pensa? Irá lamber as páginas e ficar com gosto de cola na língua? Tudo passa pela minha cabeça, inclusive - o imaginário não conhece limites - posso vir a ter desejo pela sua bunda.

O livro vai receber todos os olhares, todas as mãos, narizes e sabe-se lá mais o quê (parafilia é igual bunda, cada um tem a sua, até os “normais” têm uma - normofilia) e quando tudo estiver acabado o livro irá adormecer na estante.

E talvez seja este o momento em que se sente mais poderoso, afinal dominou o livro e este enfim vai para a estante, tal como fazer sexo e não sentir-se obrigado a dormir com aquela pessoa que já te deu o que queria, o prazer.

O livro não ronca.

É como o fim do orgasmo: o líquido enfim salta e desce escorregadio, fuma-se um cigarro e já foi, acabou, cada um vira-se para um canto e dorme, exausto.

O mesmo livro - com a mesma capa, linhas e palavras nas mesmas páginas - pode ser uma fonte insaciável de prazer. Toda a fonte de prazer está dentro dele - capa, linhas e palavras nas mesmas páginas - nós que por vezes somos impotentes para captar todo esse prazer num momento só. Sempre ficam linhas para interpretar, palavras que nos levarão a reflexões mais ambíguas, por vezes até tortuosas. Por isso reler o mesmo livro, ao invés de ser sinónimo de monotonia, é na verdade uma forma de fazer sexo novamente com a mesma pessoa… como se estivesse com outra, uma desconhecida que você pensava conhecer tão bem.

A leitura é para os insaciáveis.

É o livro que fuma um cigarro e vira para o outro lado, ele já te deu tudo o que devia te dar.

É o livro quem na verdade te domina naquele momento. Fechado após a última página ele talvez seja alguém dormindo de lado, as pernas fechadas, como se estivesse a dizer: «Dei-te todo o sexo que querias, todo o prazer que poderias receber. Tu que não soubestes recebê-lo inteiro, precisa recebê-lo por fracções até chegar ao clímax.»

Há quem possa ter medo de um livro, medo de reconhecer a própria impotência. Medo de sentir tesão, medo de fazer sexo novamente. O livro é para quem gosta de sentir tesão.

Engana-se quem pensa que consegue se despedir de um livro mesmo após a sua leitura. Porque mesmo se ficar deixá-lo ali, entre outros livros na estante como algo acabado, o processo de prazer prossegue para além da leitura, para além do acto. É como se deitar depois do orgasmo e continuar sentindo prazer, continuar fazendo sexo, porque é como se continuasse envolvido. É como já ter chegado ao fim mas sem apagar os rastros no corpo e o gosto do sexo na boca.

Esse texto foi escrito quando acabava de ler o livro Incompletos do autor Albano Martins Ribeiro (Branco Leone), talvez por isso o tom erótico, por ainda estar dentro da atmosfera do livro. Em breve, aqui na série “Dias Incompletos” começo então a falar mais sobre o conteúdo desse livro.

Novo livro de visitas e Firefox

Já alterei os links para o livro de visitas, basta ver no final de cada post em “Comente esse post” ou “Comente sobre o livro”.

Devo avisar aos utilizadores do Firefox que antes havia um problema nesse layout - problema este que não acontecia no IE - mas que foi alterado para que a visualização pelo Firefox não apresentasse problemas.

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