Resenha: Histórias de Aprendiz

historiasaprendizSenta aí e me conta tudo o que você sabe, todas as lições que tirou da vida, todos os erros que cometeu, as formas que encontrou para resolver todos os seus problemas, as boas ideias que teve.

Não me importa se o que tem a me contar está relacionado com o amor, a amizade ou a sua vida profissional. O que me importa é que não tente resumir a conversa, que não tenha segredos, que me ensine alguma coisa. Uma história não pode ter validade quando você é a única testemunha, o único narrador e ouvinte.

Não seja tão tímido e humilde, é claro que você tem algo para me contar, ninguém vive esse tempo todo - independente de quanto tempo foi - sem que possa aprender ou ensinar alguma coisa. Se a sua modéstia não lhe permite ensinar, apenas me diga o que aprendeu, que fingirei não ser sua aluna e discípula.

Não fuja, porque quero te sugar, quero ouvir suas histórias repetidamente, até ter decorado todas as sequências, as frases e as suas feições. Quero saber pormenores, quero ouvir o que pode me contar, e se me permite, ir mais além.

Quero que a história fique aqui latejando, que ela possa ter cores, formas, cheiros e sabores no meu imaginário, e que amanhã me lembre de tudo, de trás para frente, mesmo naquela hora em que de propósito fingirei não me lembrar, apenas para que me conte a história de novo, na mesma sequência, com as mesmas frases e feições.

Não me diga o que tenho que fazer com a minha vida, como devo agir ou o que devo mudar, me diga apenas o que fez com a sua, e a mensagem me será dada da forma mais natural, e com maior e melhor resultado.

Também não quero que me conte, pelo menos não agora, o que é que fez para mudar o mundo. Sempre duvido das pessoas que são capazes de mudar o mundo, mas que não foram capazes de mudar as suas próprias vidas.

Se não posso afinal discordar da sua história? Eu não estou aqui para concordar ou discordar, o que quero é te ouvir. O resto é comigo, meu caro mestre.

O que me importa é a sua história, que possa dividi-la comigo, porque o valor da história está na sua repetição, naquela voz que vai narrando enquanto o olhar vai se perdendo, como se ali apenas estivesse a voz, porque a alma está lá longe, dentro da situação vivida. Não enterre suas lembranças como um tesouro, porque tesouro enterrado não vira árvore.

Sua história não precisa ser um jardim ou uma floresta, basta ser semente. Minha cabeça é terra fértil, onde as ideias são lançadas, vão criando raízes no solo, sem perder a possibilidade de um dia alcançar o céu. Você não precisa cavar um buraco, porque minha mente já é aberta. Basta deixar a semente solta pelo solo, que ela própria tratará de fazer o resto, porque em mim faz sol e chuva.

Uma semente não serve apenas para virar árvore, mas para se transformar em outras sementes. Não pense que quero que me resuma todos os livros que leu, a me poupar tempo e trabalho. Quero que me ensine a ler, para que depois eu possa ir à biblioteca. Quero que essa sua semente, deixada de forma tão despretensiosa no solo, se transforme em outras sementes que deixarei em outros lados, excepto sobre pedras e areia movediça.

Não seja egoísta e me conte tudo, não quero perder um único detalhe, uma única vírgula. Comece, estou pronta para ouvir, por onde pretende começar? A vida seria muito mais fácil se as pessoas não guardassem suas experiências num baú lacrado.

Talvez aquele velho ali sentado numa pedra a fumar o seu cachimbo seja ignorado por todos, e não passe disso para a maioria das pessoas, um velho, um simples velho, mais um velho como os outros. Para mim ele era um sábio.

Me aproximava de mansinho, sentava à sua beira, pedia que me contasse os seus “causos” e ia ouvindo atenta cada história, porque ninguém mais que ele podia me ensinar tanto.

Histórias de Aprendiz, do Werner Zotz, escritor premiado e que se dedica bastante à literatura infanto-juvenil, tendo também já escrito obras de educação, turismo, viagem e aventura, me traz muitos “causos” dos mais variados tipos de pessoas. As histórias que mais me marcaram ou emocionaram - e muito me ensinaram nesse livro - foram: “Competência não tem regime” (página 51), “O Rei e o Quadro do Galo” (página 98), “Suborno de aniversário” (página 129) e “Meia Xícara de Café” (página 144). “Somos todos idiotas”, da página 64, foi o mesmo que vestir a carapuça: já o fazia há tempos, inconscientemente, mas agora continuo a fazê-lo, dessa vez com consciência, feliz por estar no caminho certo.

Histórias de Aprendiz me lembra esse velho sentado numa pedra a fumar o seu cachimbo, me lembra todas as pessoas, independentemente da idade, que puderam e se permitiram me brindar com as suas histórias e experiências de vida, lançando assim uma semente ao solo.

Resenha: Pérolas de Sabedoria

perolasdesabedoriaSempre considerei o livro como um amigo silencioso que muito me diz.

Por vezes até penso que esta é uma relação egoísta - da minha parte. Se estou com um amigo cara a cara, possivelmente não vou pedir que se cale, muito menos que toque nesse assunto apenas mais tarde, quando eu tiver tempo, ou estiver com cabeça para pensar naquilo.

Todavia é justamente em função desse egoísmo que a comunicação por vezes pode ser maior com um livro, porque vou abri-lo exactamente quando quero ouvir suas palavras através dos olhos, quando minha mente está mais aberta e receptiva às suas palavras.

A leitura é um momento de paz, não apenas um sossego dos silêncios de todas as palavras sem voz, mas que ecoam na memória, como também um momento de paz interior, em que se entra num outro Universo, deixando de se perceber tudo o que acontece em volta.

Pérolas de Sabedoria, da Editora Letras Brasileiras é o último livro que leio esse ano. O autor, Al Stevens, um dos tantos pseudónimos de Jaime Bernardes, português radicado no Brasil, hoje actua como escritor, tradutor, jornalista e consultor editorial. Recebeu a Medalha Jorge Amado da Academia Brasileira de Letras e viveu desde sempre envolvido com a escrita e com o jornalismo.

Pérolas de Sabedoria é um livro curto, com pouco mais de 125 páginas, que se apresenta em pequeno formato - excelente para colocar na bolsa e assim poder lê-lo em qualquer lado - com um pensamento por página, por vezes abordando o amor, o ódio, o dinheiro, a paz, a sabedoria, e sobretudo a felicidade.

« “Que o amor seja eterno enquanto dure” - disse o poeta Vinicius. E podia ter acrescentado: “e quando acabar, que se transforme em amizade.”»

Em 25 minutos, lendo e reflectindo, cheguei à última página. Mas também pode ser lido de forma aleatória, deixando-o na cabeceira e escolhendo uma página ao acaso.

Creio que, de acordo com cada momento da vida, o livro possa se encaixar com aquele momento, fazendo com que assim possamos considerar uma ou outra passagem mais importante, talvez justamente por causa do tal egoísmo. Para o dia de hoje, leitura acabada de fazer e a memória ainda quente, destaco os pensamentos das páginas 15, 19, 29, 85 e 110 como os que mais me marcam. Amanhã, voltando a encontrar o livro na cabeceira, possivelmente ele me oferecerá novos conselhos.

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Rio de Janeiro: Noite Mastroianni

Você está indo para o Rio de Janeiro? Já está no Rio de Janeiro? Você mora no Rio de Janeiro? Então você não pode perder esse evento:

A terceira Noite Mastroianni, na Cinemathèque, será em clima de reveillon antecipado, no domingo, 30/12. A festa começa às 22:30h e o ticket de entrada custará a bagatela de dez reais. Haverá cuspidores de fogo, strippers burlescas, projeção de vídeos, manequins com cabeça de elefante e outras instalações absurdas a cargo dos diretores de arte Christiano Menezes e Chico de Assis.

ATENÇÂO! Será concedido um DESCONTO de 50% do valor da entrada (o que dá uns R$ 5) aos homens que forem de sapato branco (não vale tênis, malandro), e às mulheres que vestirem saia e MEIA ARRASTÃO. Além disso, todo o tipo de MARTINI terá preço promocional, como sempre acontece nas mastroiânnicas noites na Cinemathèque.

Alegria, desbunde e o seu futuro esperam você lá.

O serviço:

Noite Mastroianni Pré-2008
Cinemathèque - Rua Voluntários da Pátria, 53 Botafogo
A partir das 22:30h | Couvert Artístico: R$ 10,00
Com João Paulo Cuenca & DJ Kowalski

E muito Nino Rota, Motown, Funk 70’s, Tim Maia, Count Basie, Bowie, Kurustrica, Blur, Jorge Ben, Aracy de Almeida, Bellrays, Editors, Elvis Costello, Elza Soares, Frank Sinatra, Lily Allen, Radiohead, Timbaland, Frank Sinatra, Gwen Stefanie, Justin, Rihanna, Fundo de Quintal, Grace Jones, Ibrahim Ferrer, LCD, Morrissey, Strokes, Bix Beiderbecke, Omara Portuondo, Pixies, Private Dancers, Queens of the Stone Age, Duran Duran, REM, Franz Ferdinand, Killers, Flaming Lips, Roberto Carlos, Tom Zé, Wado, Piazzola, Cure, Phil Spector, Gogol Bordello ETC.

Recebi esse e-mail do escritor João Paulo Cuenca e decidi logo divulgar, apesar de não querer fazê-lo, por ficar com inveja de quem vai (infelizmente não posso…)

Você também pode ler essa mesma nota nesse post do Blog de anotações do João Paulo Cuenca.

Acabou a “promoção”

Dia desses comentei que no site da livraria Webboom o livro Alugo o Meu Corpo tinha um desconto, estava a ser vendido a 10,64€. Pelos vistos a promoção acabou, visto que fui lá agora e vi que estava no preço habitual, 11,97€. Pelo que deu para perceber, algumas livrarias online vendem a 11,97, outras a 13,30.

O motivo da minha ausência por aqui

O motivo da minha ausência por aqui é muito simples: de repente me deu um branco, não lembrava nem o meu nome de utilizador nem qual o e-mail dessa conta…

Resenha: Claudinha no ano da loucura

«Claudinha no ano da Loucura» (Alexandros Evremidis, Editora Letras Brasileiras) narra, na primeira pessoa, a história de um jornalista que se apaixona por uma adolescente. Para complicar ainda mais a história de Mavrô, some que, desde o princípio, sabemos que Claudinha é filha de uma das suas colegas da redacção, aquela que até então nem tinha prestado tanta atenção ou dirigido tantas palavras, e de quem se aproxima apenas para saber da menina, começando todo um romance através de bilhetes e cartinhas, onde a mãe vira uma espécie de pombo-correio entre ele e Claudinha, ainda sem imaginar os interesses do colega jornalista pela sua filha pré-adolescente.

«Tarado! Pervertido! Pedófilo!», alguns devem dizer. Talvez uma das grandes oportunidades que um livro nos oferece é a de pensar sobre vários aspectos de uma mesma situação, independentemente de se concordar ou não com o autor, aliás, há grandes obras em que não concordamos com nenhuma ideia do autor, o que não faz com que aquele material deixe de ser uma grande obra.

A primeira análise que faço é a seguinte: se sou eu a escrever minhas memórias de infância e adolescência, sobre homens maduros que me atraíam nessa altura - até seria verdade, me lembro muito bem de ter menos de 8 anos e me apaixonar por um homem com mais de 28, ou de, aos 14, por um outro com mais de 36, e inclusive de raramente, nessa altura, prestar atenção em qualquer garoto da minha idade - certamente que os dedos serão apontados - ou não serão - de forma diferente, talvez com menor agressividade na acusação, como se o amor tivesse idade, ou como se, consoante a faixa etária ou sua diferença, para um deles a definição atribuída é amor, para o outro, perversão.

Claudinha, que logo foi considerada a “Lolita carioca”, não é vítima nessa história. Mas Mavrô, todavia, também não o é. Na verdade, em “Claudinha no ano da loucura”, ambos estão perdidos num mundo sem alicerces, sem previsões, sem expectativas concretas, como se fossem personagens de muitas histórias que ainda não ganharam fim.

Ao ler o livro, é como se visse os dois sentados no chão da sala, num canto escuro, talvez esperando apenas que alguém lhes estenda a mão, lhes compreenda, lhes tome pelos braços e traga vida às suas vidas. E muitas vezes não é isso o que precisamos ou que faz toda a diferença no mundo caótico em que vivemos, de algo, apenas alguma coisa, que mude todo o cenário?

Porque já fui adolescente e porque ainda hoje convivo com muitos deles na minha vida pessoal, vejo que ainda há muitas Claudinhas por aí, o que quer dizer que a história não me causou qualquer tipo de choque. Mais que isso, até posso dizer que, em determinada fase da vida, ou principalmente na adolescência, muitas mulheres um dia foram Claudinhas, eu certamente também fui, se bem com com mais juízo, risos. Chego até a pensar que a diferença entre a Claudinha e eu seja de que, no meu caso, e mesmo apesar da inocência e da ingenuidade dos actos puramente infantis, sabia exactamente o que queria, enquanto que a Claudinha parece não ter chão, não ter um objectivo claro ou definido, mesmo quando por vezes parece mais madura que a idade que tem.

Basta estar no meio de algumas adolescentes para reconhecer as Claudinhas. E não é errado ser uma Claudinha, porque a adolescência é uma fase em que se busca por uma identidade, em que se quer deixar de ser um número, mais um filho que nasceu, e ser realmente alguém. Investir na conquista, no desejo de despertar o interesse do outro, e inclusive o gozo que se tem em reconhecê-lo, é algo muito característico nas adolescentes, e a única desvantagem é que não sabem o poder que pode ter a juventude, ou inclusive os desprazeres que pode proporcionar uma atitude inconsequente.

Mavrô não é o adulto que poderá se gabar por ter conquistado uma adolescente, porque é ele que - por livre vontade - se torna conquistado por ela, e enrolado em suas peripécias e jogos de manipulação.

Mesmo quando Mavrô tenta tomar as rédeas do jogo, vê-se que, na maior parte do tempo, é Claudinha que conduz toda a história dos dois, e o papel de Mavrô, se não dependesse da sua acção nos momentos de estímulo, até poderia ser considerado passivo. Não de vítima porque ele não era obrigado a ceder aos seus encantos, essa história da vitimização do homem vem desde os tempos de Adão e Eva, em que foram expulsos do Paraíso porque foi a Eva a oferecer a maçã, o que não quer dizer que Adão não poderia ter recusado.

Passivo, é essa a definição para o comportamento do Mavrô, por vezes quase submisso aos caprichos da adolescente, que também não deixavam de ser os seus, que também não deixava de ser o que ele queria.

Se fosse apenas a atracção pela adolescente (ninfofilia), se fosse apenas o desejo de fazer sexo com a adolescente, e se esta lhe cedesse facilmente, quando ele queria, e não quando ela lhe atiçava, através de todos os seus jogos, talvez a história não rendesse tantas páginas, e o encanto teria ido embora assim que atingido o intuito. O que Mavrô precisava não era de uma adolescente para fazer sexo, mas dessa rebeldia tão característica, de todos esses cenários reais ou imaginários, tão facilmente plantados na fértil e indefinida cabeça de uma adolescente confusa, de todos esses contornos que uma história vai ganhando, sem previsão do fim, sem hora marcada, sem rotina, com altos e baixos e surpresas em cada novo encontro, com expectativas que se antecipam antes de se prever se o que virá é o que se quer, o que não se quer, ou o que não se sabe, o que desde já inibe a preparação psicológica para as reacções, ou inclusive as confunde. Mas era vida, o que faltava na vida dos dois, e isso o que buscavam quando se refugiavam nos braços do outro ou mesmo nos encontros de ménage ou orgia, em que procuravam em grupo uma identidade individual.

Mavrô se transforma num adolescente ao conhecer Claudinha, e durante algumas fases do livro me pergunto quem seria ali a criança, e aí está, até mais que nas cenas de sexo, o que há de mais forte no livro, o emocional, o psicológico, que vai moldando uma série de situações.

A história passa a ser regada de sexo e drogas, e com o passar das páginas se nota uma compulsão, aquele tipo de compulsão que parece tapar todos os buracos do vazio que há em volta, o que, se analisarmos bem, não é muito diferente de muitas outras histórias, em que o sexo é utilizado mais como refúgio do que como encontro, em que os problemas ainda ali estão e o sexo não os solucionou, mas se faz sexo e se torna menos penoso conviver com eles.

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