Quanto mais saciada, mais vulnerável, Anaïs Nin?
Ainda não sei o que pensar sobre isso:
«Só agora Elena percebia porque é que certos maridos espanhóis se recusavam a iniciar suas mulheres em todas as subtilezas do acto de amor - para escaparem ao risco de lhes despertar paixões insaciáveis. Em vez de se sentir apaziguada, saciada pelo amor de Pierre, Elena sentia-se ainda mais vulnerável. Quanto mais desejava Pierre, mais desejo tinha de outros amores.»
Trecho do livro Delta de Vénus, Anaïs Nin, (página 147, Bico de Pena)
Às vezes é simplesmente assim. Estou muito tranquilinha a ler um livro e de repente pimba!, uma frase tipo a acima desvia os meus olhos da página que acompanhava para pensar naquilo que o autor acaba de me contar.
Não sei quanto tempo fiquei assim, livro na mão, olhos para o tecto e testa amarrotada a pensar nessa frase do livro da Anaïs Nin. Eu podia passar horas, dias, semanas, pensando, pensando. Nesse tipo de situação não há outro jeito: anotar a frase no meu caderninho de leituras, deixar para pensar depois, caso contrário eu nunca acabo livro nenhum.
A frase ficou, e ainda assim não tenho nenhuma conclusão. Quer dizer, tenho duas reflexões sobre isso, mas uma contradiz a outra.
Sobre o cansaço - Fernando Pessoa
«(…)Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara. (…)»
Estrofe de “Opiário”.
Fernando Pessoa em Poesia de Álvaro de Campos - Vol. I
Frases sublinhadas - 1º parágrafo do ‘Sexus’ - Henry Miller
Primeira frase do primeiro parágrafo do Sexus*, Henry Miller**:
«Devo tê-la conhecido numa quinta-feira à noite, no salão do baile».
Adoro Henry Miller. E talvez só nele combinasse tão bem a frase acima “Devo tê-la conhecido numa quinta-feira (…)” Foi uma excelente forma de começar o livro, e além disso é como se a frase logo o identificasse.
A frase pode gerar uma dupla interpretação. “Devo tê-la conhecido” pode gerar dúvida se de facto a conheceu, ou, se tratando de Henry Miller, a minha interpretação é de que a data afinal é o que há de menos importante que o facto de a ter conhecido. O quando talvez não soubesse, mas sabia onde, e o onde era importante para o resto da história, muito mais do que o quando.
* a edição que tenho em mãos: Círculo de Leitores, Março de 75, tradução de Adelino dos Santos Rodrigues
** Livros de Henry Miller disponíveis no Brasil: Nexus, Plexus, O mundo do sexo, Trópico de Câncer, Pesadelo Refrigerado, Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch, Daisy Miller e um Incidente Internacional.
Velocidade da leitura e o meu caderninho de anotações
Muito já me perguntaram sobre a velocidade da leitura. É verdade que tenho alguma velocidade na leitura - uma velocidade normal, adquirida com os anos, velocidade esta que apenas constato quando acompanho a leitura de outro alguém que sempre me parece mais lenta que a minha - mas a velocidade para mim não é e nunca foi uma prioridade. A prioridade é o livro, é senti-lo, e senti-lo rapidamente seria o mesmo que “despachá-lo”, que ler por obrigação.
Se ler para mim fosse um trabalho, certamente leria numa velocidade ainda maior, possivelmente na diagonal. Mas ler para mim é acima de tudo um hobby, um prazer, portanto para mim a velocidade da leitura deverá cumprir alguns requisitos:
1- a velocidade em que conseguir entender o texto completamente;
2- a velocidade em que poderei perceber algumas subtilezas da escrita;
3- a velocidade em que poderei ler e também reflectir;
O ponto 3, para mim, assim como os outros, é imprescindível. Ler para mim não é um acto passivo, dado que na leitura também entramos na história, nos envolvemos, sentimos emoções, pensamos. Por vezes posso ler uma frase e pensar em algo que não tem nada a ver com aquilo que estou lendo naquele momento, mas foi aquela frase que me guiou o pensamento. Por vezes também posso ler uma frase e ficar nela o tempo todo, ela ali quase latejando na minha cabeça, eu pensando em várias complexidades dessa mesma frase, ou então simplesmente admirada com a beleza daquela frase ou do seu significado.
A arte não precisa ser apenas vista, mas apreciada.
Apesar de ser possível que você veja hoje uma obra de arte, para apreciá-la leva muito mais tempo. Leva o tempo que for preciso levar.
A leitura pode oferecer um texto ou uma ideia pronta, mas o pensamento não. E é isso que faz da leitura um acto não-passivo, fazer com que ela nos desperte pensamentos para além daqueles que ali foram impressos.
Não quero perder uma única linha, uma única vírgula, quero engolir o livro inteiro.
Alguns amigos e leitores amigos sabem que tenho um caderninho de anotações onde vou registando algumas frases ou parágrafos de livros que leio. É uma forma que tenho de não deformar completamente um livro, até porque uma frase sublinhada hoje pode não ser a mesma dentro de dez anos.
Decidi então que muito em breve começarei a registar aqui nesse blog algumas frases que, por um motivo ou outro, vão me chamando a atenção nos livros que li ou que vou lendo. Mas quanto a isso devo chamar a atenção que, muitas vezes, talvez tais frases apenas poderão ter significados para mim, impregnada durante a leitura. Mas talvez seja interessante fazer esse registo, a frase crua, não com o objectivo de mostrar os meus pensamentos, mas despertar alguns outros após o ponto da frase.
P.S.: Depois poderão acompanhar essas minhas anotações através da categoria frases sublinhadas.

